11.25.2004

Porquês dela e dele

Por que teu beijo me lembra cerejas?
Por que tua pele é tão macia?
Por que eu te gosto sem saber porquês?

Por que o céu fica cinza, e porque o vento não é visível?
Por que para mim, agora, as fadas terão sempre asas azuis?
Por que a luz me cega, e teu olhar me ilumina?
Por que eu te sinto tão assim, sempre a perder de mim?


Por que um abraço e um sorriso me fazem rir como tola?
Por que tolices são belezas em ti?
Por que tua beleza é tão sonhadora?
Por que sonhos são sempre etéreos?
Por que seriam etéreas minhas asas?

Por que eu saio de ti e já me sinto sem mim?
Por que eu te gosto e nem sei que tens?
Por que pergunta alguma precisa ter respostas?

Por que respostas soltas precisam de perguntas?

Porque eu te adoro mesmo assim. Porque eu te quero ainda assim.
Porque eu te adoro mesmo assim.
Porque eu te quero ainda assim.

Porque somos juntos, tu em mim, eu em ti.

11.22.2004

Saberei se sei

Eu não sei a cor dos olhos do amor da minha vida. Mas sei que quando os vejo, vejo a mim mesma. O que sei é que os olhos dele têm um brilho diferente, um leve jeito cafajeste e carinhoso.
Eu não sei como são os cabelos dele. Mas sei que ele não se importa que eu brinque com eles por horas, em silêncio, e esqueça até de conversar.
Eu não sei qual o formato de suas mãos. Mas sei que são macias, e que com elas ele toca as minhas, assim, distraidamente, só para que eu saiba que ele está ali.
Eu não sei como é sua boca, se os lábios são finos ou carnudos. Mas sei que, quando a boca dele encosta a minha, derreto e sou toda dele.
Eu não sei se o beijo dele é calmo ou daqueles cinematográficos, de tirar o fôlego. Mas sei que ele abre os olhos de vez em quando, e eu também, e aí sim, sei tudo o que ele pensa, tudo o que ele sente.

Eu jamais soube o que sei. Mas sempre soube o que não sei. Não sei se vou encontra-lo. Não sei se ele irá me encontrar. Não sei se nos reconheceremos, não sei se seremos um.

Será que nosso beijo é assim, como eu em mim? Será que tuas mãos são assim, suaves só para mim? Será que seremos assim, tu em mim, eu só para ti, tu só para mim?

Será que sei? Será que saberei?
Obs. análogas.: Escrito tanto tempo atrás... revisto tão logo após. Premonição? Intuição? Só sei que parece muito assim...

11.16.2004

Saliva em desespero

E quem já adorou e perdeu sabe o que é um beijo desesperado. É a última possibilidade. A entrega quase total. O desejo de continuar, mesmo sabendo que não existe mais. Que talvez nunca existiu. Que possivelmente nunca existirá.

Quando a boca trêmula, salgada das lágrimas toca a outra boca... E nada é coordenado, o instinto toma conta. As mãos agarram a cabeça que sequer se move. A outra boca segue impávida. A língua tenta, procura corromper, provoca... e nada consegue.

O desespero do fim passa através da saliva. Os lábios tremem, os olhos choram. Tudo que sabem fazer. Tudo que podem fazer.
O último olhar é o pior de todos. Acabou, nunca existiu. O olhar de pena e compaixão do outro fere mais que qualquer arma. Machuca e dilacera. Ainda mais. Sempre mais.

Os braços tombam, o olhar procura o chão. Acabou, acabou! Será que existiu? Será que fui apenas eu?

Saliva, dor, amor, perda.
Perdendo amores.
Sofrendo dores.
Querendo ardores.

Salivando amores.

11.11.2004

Sem fim

Quanta dor pode haver dentro de alguém.
Quanta força pode ter no coração de outrem.
Quanto amor pode conter no peito de todos.

Quantos livros ainda lerei? Quantos lábios ainda tocarei.
Quantas palavras ainda escreverei...

Acordei com medo da vida. Acordei com pavor da morte.

Fantasmas incertos rondaram minha cama.
Feridas fechadas se revelaram em sonhos.

Quanto sabor pode ter aquele beijo?
Quanto perfume ainda ronda aquele peito.
Quanta paixão ainda me corrói por todos aqueles medos.

Gritos insanos ainda ouço por causa de tantos erros. Sentidos dormentes ainda zelam por uma consciência.
Não sei se enlouqueço. Não sei se deito, durmo... sequer sei se morro.
Vivo dias sem fim, vivo vidas sem mim.

Quero lágrimas para mim.

11.08.2004

Começo da noite

E o céu brincou com feixes de luz daquela cor que ele diz minha. Só para me provocar. Só para me lembrar.

E eu olhei o passado distraído, e admito que tive vontades. Era belo, apetitoso até. Mas era passado passageiro, ambíguo que sempre prometeu e jamais cumpriu. Como todos os outros passados.

Tudo foi apenas um presente. Uma lembrança. Um aviso.
Doce, como ele. Alegre, como ele. Dedicado como ele. Com aquela sutileza dócil que só ele.

Tudo calmo como poucas vezes antes. Eu, ele, o mundo, nós.
O passado fez de conta que não me viu. Fingi também. Brigas sem sentido nem razão nem rosto continuavam como sempre. Sorrisos bobos em horas loucas também.
Tudo como sempre. Louco e comum e irreal e utópico e indescritível e inesperado e... inconstante e imprevisível. Como eu. Como ele (?).

E então o céu escurecia, e os feixes morriam. Só para me dar saudades. Dissolviam o passado. Eu tremia. Era o fim do dia.