10.31.2004

Disléxico. Sem nexo. Sexo.

Foi por distração que aconteceu. Estava ali, sempre esteve. Bem perto dos seus olhos. Tanto que se podia ver a cor. Mas foi só quando chegou perto demais... quando pode ver exatamente as cores... exatamente os pontos amarelos e marrons... as linhas esverdeadas...
Foi ali.

Que o jardim teve cores mais claras. Que os sons eram mais suaves. E tudo pareceu... anormal. Diferente de um jeito bom. Tão complicado e tão simples. Tão clichê. Pareceu andar devagar. Pareceu que o vento sussurrava só para eles. Pareceu que o sol se escondia, brilhando só por eles.
Pareceu perfeito.
Pareceu.
Sempre parece.

- Porque libélulas são assim? Porque são tão leves, tão... tão libélulas?
- São pequenas fadas. Que fogem de nós. Nunca se consegue pegar uma... ficam apenas ali. Para que vejamos toda sua forte beleza frágil.

Beleza como aquela. Como a que surgia ali, naquele dia de sol atrás de nuvens, de brisa com cheiro de sal.
Beleza de dias assim, sem ter porquês.
Beleza frágil, que foge das paixões sanguíneas.
Beleza que estupra a própria beleza, tão fascinante se é.

Tão fascinante se pode ser.
Tão fascinante é.

10.27.2004

Táctil desejo

Ele dá a cara para bater. E por isso algumas vezes lágrimas caem. E ele sequer esconde. É o preço que paga por dizer o que sente quando a maioria acha que devia esconder. "É cedo demais, é tarde demais..." é o que todos dizem.

Só que então ele pensa: "e o que é o tempo?" Quem estipulou quando é cedo, e quando é tarde? Teorias científicas dizem que o tempo não existe. Ele não sabe nada de física e ciências. Ele só sabe que o AGORA bate na porta forte demais, e ele vai abrir. Passado? Fica lá. Não dá para mudar. Futuro? Vai vir. É só esperar.

Porque é hoje que acontece. É esse segundo que ele vive, é agora que o sangue corre, é desse instante o desejo. O sol bate no rosto daquele jeito especial só nesse momento, depois acabou. E não acaba para sempre. Nunca acaba. Existindo uma vez, existe sempre! Vivo. Esquecido ou recordado. Salvo. Guardado e livre. Sagrado.

O presente-tempo é o presente-presente. Sentir cada toque suave da pele dela. Aspirar o perfume oriental nos cabelos dela. O sabor agridoce dos lábios. É pelas sensações tácteis que ele vive. É pelas visões dos olhos verdes-cinza dela que ele continua olhando o céu poluído cada dia. É pela promessa de acariciar a pele fria dela que ele levanta e vai.

Pela branca pele fria. Pelo inocente sorriso. Pelo olhar felino. Pelos dentes quase grandes demais. Pelas unhas afiadas.
Desafiando brandas inocências ferinas de sonhos deles.
Por desafio ele vive.
Por inocência ele resiste.
Por desejo ele continua.
Pelos sonhos ele luta.

Resistindo contínuas vidas lúgubres.
Por tudo e por nada.

Pela confirmação de um presente futuro.

10.23.2004

Interrogação

Será? Será que vale? Será que continua? Será que é tudo de novo? Será que é tudo diferente?

Menininha medrosa. Que atravessa a rua sem nunca olhar para os lados. Mas deseja um corpo sem aquela coisa que pulsa e bate dentro dela. E quem em cada batida parece dizer: "es-tou-a-qui.sem-pre-a-qui-sem-pre-aqui-não-es-queça-de-mim".

E cansa querer sempre tudo de novo. Mas a teimosia não deixa desistir. A curiosidade é maior... Ah deus, quem dera conhecer o fim das coisas. Saber que têm um fim. Porque nunca tem, e quando tudo acaba, volta para o começo, e continua num círculo tortuoso e viciante e empolgante. começa acaba quem sabe volta

Odeio quem sabes. Detesto talvezes. Repugnam não saberes. Brigo com certezas e convicções.
Sei lá eu o que quero?

Sei lá eu o que não quero?
Ah... só um fim. Só saber se há fim!

- Para quê saber final? Corta tua nojenta exagerada empolgação. Diminui teu insuportável angustiante sofrimento.
- Mas...
- Mas nada. Aí quem acaba é você. E eu também.

10.20.2004

Vampírico final

Morde as mãos de dor.
Que nelas o sentir é físico, e a mente esquece do cigano coração, e se preocupa com o sangue que escorre pelos dedos.

Sangue vermelho rubro escarlate. Forte como jamais foi e sempre quis. Manchando o frio chão de dor e emoção.

Os alvos dentes rasgam a fina pele. As frágeis veias azuis despejam o espesso líquido que desliza pelas unhas, penetra em outras feridas, apaga cicatrizes, marca brancos braços, dóceis pernas e corações alheios.

Inocente instinto leva o vital soro à boca. O desejo entre os pálidos lábios se acende com o salgado calor. Bebe com sofreguidão desejo asco. Tem o sabor de toda história. SuaveSedosoNecessárioRepulsivo.
Vicia e repugna.
Ânsia de vômito e sexo.

Gotas domesticadas escapam pela boca agora carmim. A poça escarlate aumenta.
A boca sorri. Mostra dentes manchados. O peito não dói mais. Nunca mais.
A pele cada vez mais pálida. A poça pára de crescer. As mãos não dóem mais. Nada mais dói.
Sem dor. Sem sangue. Sem amor. Sem vida. Sem nada.
Nada mais. Nunca mais.
Jamais?

10.13.2004

Nas tuas mãos

Porque agora tu escolhes. Uma garota de vinte anos, que sabe (sabe?) o que quer da vida. Que se conhece bem demais, e por isso mesmo não garante nada e promete tudo. Que age totalmente por instinto e sentimento e paixão. Que não quer se casar, mas quer passar o resto da vida com o grande amor. Que não quer filhos, mas já escolheu os nomes.

Que é chata, teimosa e sonhadora. E tem os pés no chão, adora rir e tem paciência. Que chora por amor e por raiva. E consola o mundo por ser como é.

Que na verdade é jovem demais e não sabe nada. E que acha que sabe tudo.

Que escreve tudo isso num sincero impulso, olhando para um céu nublado e sem nenhuma graça. E ainda assim, lindo aos olhos dela. Que tem medo demais. E que mal sabe falar, apenas olhar.

E tudo isso porque agora ela se despiu de si mesma, e és tu que escolhes.
Porque ela já escolheu. E agora só faltas tu.

Obs. análogas.: “E eu que disse que não ia me apaixonar... nunca mais... na vida...”

10.10.2004

Medos

Para que sentir medo? Se esse sequer é um sentimento, é apenas uma reação química do teu cérebro, que te inibe corrompe envergonha diminui enoja?

Instintos existem para serem sentidos, obedecidos. Uma vida perfeita de nada te serve sem paixão, sem tesão. Tua insônia é por causa de ti, não de mim. Tua vida é tua, nunca minha, nunca nossa. Minha vida sou eu, sempre eu, jamais alguém.

Teu medo é de uma vida imperfeita... vida essa que já tens. Para que correr atrás de falsa felicidade? Se sabes que podes tê-la real tão fácil...
Foges para dentro de ti, querendo fugir da vida. Mas essa continua lá, continua aqui, te olhando, espiando, acusando... sabes tão bem que precisas encará-la, e te dá tanto medo!

Porque medo? Sentimento inútil que te prende em tentáculos doentios. Podes ter ventos ardentes de alegria, e escolhes a solidão sanguínea de ti mesmo. Teus delírios de vampiro te impedem de sentir. Paixão não dói. Amor não destrói. O sol só queima minha pele, não nossas almas, lembra?

Não desiste. Não desista de mim, e eu prometo que não desisto de ti. Temos espírito cigano e solitário. Em carentes sonhos lentos crio fantasias de mim e ti.

Me deixa te ajudar.
Deixa te querer.
Queira deixar.

10.08.2004

Nunca sempre

Jamais consegui esperar. Sempre acreditei que meu relógio andava mais devagar que o normal. Seu vidro é cheio de minúsulos arranhões. São as feridas de minhas unhas, a prova física da ansiedade.

Ando esperando os finais de semana. Descanso da vida. Descanso do mundo. Descanso até de mim. E em outros tristes braços, esqueço o irreal que me atormenta. E lembro do frágil real que me consola...

Me olho e vejo estranhezas. Ainda é o mesmo corpo. Ainda são os mesmos olhos. Ainda é a mesma pálida pele. Mas dentro daqueles raios verdes de meu olhar há novo algo estranho. Que não compreendo, e penso fundo se quero conhecer. Tenho sentimentos que não suporto. Sinto vontades que quero e não posso. Ainda não posso.

E toda essa minha ansiedade mata. Toda essa vontade nunca soube esperar. Sempre foi tudo hoje, tudo agora, tudo sempre, nunca nunca. Porque agora sei que preciso tudo nunca, nunca hoje, agora sempre... e então dura. E vai ser como queremos. E vai ser sempre sempre e não mais nunca nunca...

Mas os ponteiros se arrastam... e a areia não acaba... e a lua não chega, e o sol não se põe...
E meu relógio se machuca cada hora mais.

10.03.2004

Trem lotado

Pôr do sol alaranjado. Visto através de outras pessoas. No movimento ritmado e constante de um trem lotado de todo tipo de gente. Mas já não vejo mais. Alguém à minha frente. Desisto e sento. Não há lugar. Apenas o chão. Sento. Meu jovem cansado corpo não agüenta mais ficar em pé. Quer se jogar no chão, e dormir. Quer sonhar. E ter a vã esperança de sonhar com alguém tão longe.

Daqui de baixo as pessoas não me olham. Estou abaixo deles. Sou inferior. E eu as vejo em seus medos. Na forma de se equilibrarem. Jogando o corpo sobre um pé, depois outro. E o trem lota ainda mais a cada parada. E em meu frio chão reconheço como só posso ser. Um fio de janela! Encontrei uma pequena fresta de mundo. Lá fora uma borboleta. E é bonita, não bela. Tem a vulgaridade das mariposas urbanas. Suas asas não refletem o fraco brilho do sol se pondo. A poluição se entranhou em seu frágil corpo. Mas me agradada olhá-la. É ambiciosa, a pequena! Quer alcançar essa minhoca de metal cheia de carne humana com seu etéreo corpo.

Ela desaparece.E aqui dentro entra cada vez mais gente. E um frio vento de fim de primavera também. E são tantos cheiros! São tantos seres. São tantas cores? Enxergo tudo por um labirinto de pernas. Mas Ariadne alguma me prende a fios. Quão triste felicidade pode haver na vida de um invisível... Escondido na sustentação dos sonhos e desejos de todos. Com a visão entre os quereres de vários.

Eu os incomodo aqui. Quisera não. Será? Gostaria mesmo de não incomodá-los? Não desejo eu interromper a pacata e fria e previsível fútil vida deles? Porque os incomodo sentada no chão de um trem lotado. Desperto curiosidades. Quiseram eles estar aqui. Escrevendo desejos que não sinto. Desejando quereres que não tenho. Querendo sentir escritos vis.

E há uma moça à minha frente. Ela carrega um presente. Está embrulhado num pobre e vulgar papel marrom-horrendo-brilhante. Expressão sombria. Me fulmina cada vez que levanto o olhar. Sei que pensa porque não me levanto. Pensa se não sei que atrapalho. Sim, tudo isso vejo. Tudo isso sei. Sabe ela o que quero? Saberá ela o que desejo?

Sabe ela que aqui sentada, escrevendo pensamentos tolos e divagações vãs me sinto como eu. Na companhia de mim mesma. E sinto meu ser sem problemas. Sou só uma garota sentada no chão de um trem que esvazia. E enche novamente. E lá fora há tantos gritos, tanta música, tantos sons. Bem diferente de aqui dentro.

Aqui não falam. Aqui apenas passam. Não deixam nada de si. Porque agir assim? Talvez porque aqui apenas passem. Não querem nada daqui. Não deixam nada de si. E o tempo passa, como eles e elas. Tudo vai acabando. Tudo vai esvaziando. Meus olhos cansam. Minhas mãos minhas costas minha alma minhas lágrimas meu sorriso meu amor meu silêncio. Tudo dói. Tudo me dói.

Eu me dôo.

Poesia vital

Porque eu já amei mais do que consegui agüentar. Já odiei mais do que admito. Porque já chorei mais que podia, e ri até a boca doer. Já pedi beijo. Já chorei por amor, por amizade, por raiva, para implorar perdão. Já quis fugir de casa para nunca mais voltar. E ainda continuo lá. Já me perdi na cidade, com vergonha de perguntar. E porque já passeei por cemitérios, naquele silêncio consolador. E já me queimei com fogo e roí as unhas e provei meu próprio sangue. E me obriguei a esquecer pessoas que não deviam ser esquecidas. E esqueci outras que quero lembrar. Já consolei amigos de toda uma triste vida. Já chorei por pena. Já menti por amor. Já falei sozinha. Já escrevi poesias fúteis e tive pesadelos.

Tudo porque sequer sei quem sou.
Talvez todos esses "já". Talvez nenhum "nunca". Talvez nunca. Talvez já.

Nunca se vá.