Pôr do sol alaranjado. Visto através de outras pessoas. No movimento ritmado e constante de um trem lotado de todo tipo de gente. Mas já não vejo mais. Alguém à minha frente. Desisto e sento. Não há lugar. Apenas o chão. Sento. Meu jovem cansado corpo não agüenta mais ficar em pé. Quer se jogar no chão, e dormir. Quer sonhar. E ter a vã esperança de sonhar com alguém tão longe.
Daqui de baixo as pessoas não me olham. Estou abaixo deles. Sou inferior. E eu as vejo em seus medos. Na forma de se equilibrarem. Jogando o corpo sobre um pé, depois outro. E o trem lota ainda mais a cada parada. E em meu frio chão reconheço como só posso ser. Um fio de janela! Encontrei uma pequena fresta de mundo. Lá fora uma borboleta. E é bonita, não bela. Tem a vulgaridade das mariposas urbanas. Suas asas não refletem o fraco brilho do sol se pondo. A poluição se entranhou em seu frágil corpo. Mas me agradada olhá-la. É ambiciosa, a pequena! Quer alcançar essa minhoca de metal cheia de carne humana com seu etéreo corpo.
Ela desaparece.E aqui dentro entra cada vez mais gente. E um frio vento de fim de primavera também. E são tantos cheiros! São tantos seres. São tantas cores? Enxergo tudo por um labirinto de pernas. Mas Ariadne alguma me prende a fios. Quão triste felicidade pode haver na vida de um invisível... Escondido na sustentação dos sonhos e desejos de todos. Com a visão entre os quereres de vários.
Eu os incomodo aqui. Quisera não. Será? Gostaria mesmo de não incomodá-los? Não desejo eu interromper a pacata e fria e previsível fútil vida deles? Porque os incomodo sentada no chão de um trem lotado. Desperto curiosidades. Quiseram eles estar aqui. Escrevendo desejos que não sinto. Desejando quereres que não tenho. Querendo sentir escritos vis.
E há uma moça à minha frente. Ela carrega um presente. Está embrulhado num pobre e vulgar papel marrom-horrendo-brilhante. Expressão sombria. Me fulmina cada vez que levanto o olhar. Sei que pensa porque não me levanto. Pensa se não sei que atrapalho. Sim, tudo isso vejo. Tudo isso sei. Sabe ela o que quero? Saberá ela o que desejo?
Sabe ela que aqui sentada, escrevendo pensamentos tolos e divagações vãs me sinto como eu. Na companhia de mim mesma. E sinto meu ser sem problemas. Sou só uma garota sentada no chão de um trem que esvazia. E enche novamente. E lá fora há tantos gritos, tanta música, tantos sons. Bem diferente de aqui dentro.
Aqui não falam. Aqui apenas passam. Não deixam nada de si. Porque agir assim? Talvez porque aqui apenas passem. Não querem nada daqui. Não deixam nada de si. E o tempo passa, como eles e elas. Tudo vai acabando. Tudo vai esvaziando. Meus olhos cansam. Minhas mãos minhas costas minha alma minhas lágrimas meu sorriso meu amor meu silêncio. Tudo dói. Tudo me dói.
Eu me dôo.
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