9.28.2004

Nublado dia perfeito

E ela acreditava que não existiam dias perfeitos. Aquele também não foi. Porque o céu era cinzento e nublado como os olhos dela antes dele. E o cansaço dos corpos não lhes permitiu ainda mais paixão.

Mas mesmo assim o calor do corpo dele aquecia a fria pele dela como nenhum outro antes. Os macios beijos a faziam esquecer as dores de pouco tempo atrás... e seus braços a protegiam daquele surdo silêncio dentro dela.

E apesar de tudo antes ela ainda teima em querer amar. Porque nos doces olhos dele ela viu um outro começo. Calmo e maduro e amante e dedicado como ele. Libidinoso e urgente e forte e sensível como ela.

Agora ela só pode esperar. Desejar. Imaginar. Relembrar. Agora ela só pode querer. Só amar. E é exatamente isso que ela quer.

Porque hoje, só depende dele...

9.24.2004

Sem fôlego

Porque as imagens em nossas mentes são apenas correlações sobre tudo que vivemos e desejamos e almejamos e lutamos e pensamos e que essas imagens nada mais são senão livres associações para todos os dias para que não sejam apenas dias normais para que fujam de todo lugar-comum e voem até o incomum estranho e assim as vidas seguem nessas imagens loucas que jamais saem da mente e nos vigiam e coordenam a seguir vidas sempre de formas comuns mas que também nos obrigam a seguir a vida de formas mais loucas e mais interessantes para que cada dia não seja igual a todos os outros e para que um desses loucos dias possam encontrar ou aquela pessoa quase do seu lado e que pode e vai modificar intensamente tua existência por um simples e aparentemente inútil detalhe e esse alguém estava ali perto no exato momento que tu estavas inteiramente disposto a mudar toda tua vida por um sorriso e naquele momento que deixas na mão do destino e apostas "se olhar pra mim e sorrir, eu posso" e acontece e tua vida muda e tudo muda e tudo agora parece rápido demais sem pausa sem vírgulas sem respirar sem nada e parece que até o fôlego vai embora e tudo escurece e tudo desaparece aos poucos cada vez mais escuro e escuro demais e estranho e solitário e quente ao mesmo tempo mas com certeza frio e inóspito e tudo tudo tudo mais vai embora e começa e acaba e é tão confuso que nada se entende até que...

9.22.2004

Suposta declaração

Começou como começa tudo. Foi só um olhar. Pupilas se encontraram. E no encontro, o pensamento foi o mesmo.

Do medo de repetir os erros de tantas todas vezes antes.

"Sabe qual é o medo? Me magoar mais uma vez. Arriscar tudo de novo, sofrer mais outra vez. Não é nem me magoar, é te magoar. Medo por mim não tenho mais não. O que não posso é fazer outra pessoa infeliz. Tudo porque me conheço. Porque sei de toda minha passionalidade. Sei de minha personalidade cíclica. Do tempo que levo para recuperar. E que recupero.

E sabe o que não quero? Me apaixonar. E sabe o que eu quero? Apaixonar-me. E sei, é impossível entender. Não quero sofrer tudo mais uma vez. Quero arriscar tudo. E sentir-me a paixão mais feliz do mundo. E sentir outro alguém também sentir assim por mim. Sabe o único que sei? Que não queria jamais que soubesses tudo isso.

Nos meus frágeis saberes divago avisos. Grito que saibas que sou areia movediça. Imploro tempo de correr para bem longe de ti e de mim e de nós.

Porque sou romântica sim, e detesto admitir. E que não estou ainda apaixonada. Mas falta pouco demais. E que saibas que tens todo o direito de não entender nada disso, porque mesmo eu não entendo.

Tudo para entenderes que sou tão mais louca que aparento.
Porque outro traço tão marcante quanto teimosia e loucura, é essa estranha mania de ser sincera demais em todos momentos."

Porque sempre todos amam alguém mais que aos outros. E talvez sejas tu. Ou eu. Ou ninguém. Ou todos. Ou somente nós.

9.17.2004

Felicidade homeopática

Felicidade boa é em pequenas doses. Aquelas homeopáticas, sabe? Meio naquele estilo "amar é..." das figurinhas infantis. Felicidade também é... pequenas coisas.

Cantar uma música boba com bons amigos. Canções que só fazem sentido naquele insensato grupo.

Abraço apertado que quase sufoca naquela amiga querida que não vê há séculos.. ou há um dia.

Uma mensagem bobinha, que fez ver que a pessoa especial lembrou de ti.

Telefonema no meio da madrugada dos seus amigos bêbados, te convidando para mais um copo. E não interessa se tu estás de pijama e são cinco e meia da manhã. Só lembraram de ti.

Um "eu te amo". E sequer é do homem da sua vida, e sim do amigo do fundo do coração, que implica contigo a todo instante, e num segundo de descaso deixou escapar todo o carinho fraternal que sente.

Um beijo estalado na bochecha. Aquela música que adoras e toca no rádio naquele exato perfeito momento. Ficar à toa com amigos, no solzinho de primavera. E pode ser sim, aquelas besteirinhas auto-ajuda de comercial: de aproveitar cada momento.

Porque ninguém te disse que felicidade é eterna. Ou que a vida seria um mar de rosas. E tudo porque lentes cor-de-rosa machucam os olhos. E para ver o lado bom, algumas vezes tem que se passar pelo ruim, e pelo péssimo, pelo horrível e pelo assombroso. E descobrir que no fundo do poço sempre há alguma luz.

Aos poucos é tão melhor... é-se feliz sem sequer notar. E aí um dia se acorda, e se pensa na vida atual. E é do jeito que queria ser. E então é bom. É como só podia ser.

9.16.2004

Sem voz

Esse é um momento de total e absoluto ódio. De indignação total. É a primeira vez que coloco dois posts no mesmo dia. E um nada tem a ver com outro. Mas essa minha vontade de atirar o computador pela janela é gigantesca. Sentimentos quase assassinos estão à flor da pele.

Daqui a pouco me arrependo de escrever isso. Foda-se. Jamais escrevo palavrões, os acho revoltantes. Mas neste estado raivoso de indignação, é só o que me serve.

Raiva de mim, do mundo em geral. Que vontade de esganar alguém!!!!!!!
Porque essa mania de achar que o mundo é perfeito? Porque essa fixação por buscar a felicidade eterna? Porque querer tudo agora, nesse segundo, nesse instante, para ontem, da forma perfeita e impossível e irreal e inesgotável e inalterável?

Sentimento de imbecilidade. Da consciência que nada posso fazer. E dessa vez não posso mudar meu seco destino.

Garotinha mimada que não pôde ter a vida de conto de fadas que escreveu na infância.

Mas em pouco tempo tudo passa. Sei que passa. Sempre passa...
Até o próximo telefonema.

Obs. análogas.: Meu lindo... eu te ama(va) tanto! Porque não viestes a mim? Porque fizestes isso? Eu sempre estive aqui... acabar com tua vida... porque, porque?? Porque me deixar sem ti??

Paixão falsa

Não me julgue, que jamais te jurei ser perfeita. Nunca te prometi ser sincera, sempre te mostrei esconder segredos. Te deixei vislumbrar sombras da minha inquieta alma. E apenas o lado escurecido e inocente conhecestes. Onde o sol ou luz alguma penetrava. E onde meus sentimentos se escondiam...

Jamais te prometi doce amor ou suave afeição. Mas em troca te dei meu corpo e alma de amante como a nenhum outro jamais. Com atrapalhados beijos sôfregos e abraços falsos. Com sorrisos fingidos e olhares manipulados. E fostes feliz, ou não? E acreditavas numa paixão amorosa que jamais sentimos. Que nunca existiu.

Dentro de minha fria pele, de meu quente ser eras feliz. Paixões inúteis como sonhos esquecidos. Como sofrimentos de deuses antigos e homens modernos.

Com minha tua nossa dor.
Com minha falsidade.
Com teu amor.
Com nossa paixão.

Falsos amores apaixonados.

9.15.2004

Sanguíneo ódio

Aquele olhar que na inocência tanto amei, hoje me enoja. Os frios insanos olhos azuis me dão ânsia, sufocam meu peito, apertam minha garganta. Emergem a vontade infantil de correr, fugir, desaparecer... e também os adultos instintos inumanos.

- Pára de gritar! Não suporto mais tanta dor!

Pare de torturar... pare com essas chantagens vãs... com joguetes maldosos psicóticos... com as brigas vis! Que daí os desmaiados olhos verdes dela choram... e eu choro também... e não suportamos mais...

- Sai daqui! Vai embora que não te amamos mais! Nunca mais! Jamais!

E ódios escondidos ressurgem com forças irreais, sobrenaturais... e tuas acusações duras ferem nossos frágeis peitos... e dói tanto, tanto! Muito mais que podemos suportar...

- Pai, vai embora. Que ainda te amo, mas jamais como antes...

9.14.2004

Passa, tempo

Já passou o tempo. Cicatrizes fecharam. Lágrimas não correm mais.

O frágil coração volta pulsar. O sangue corre novamente pelas veias, quente e rápido e rubro e... apaixonante.
A branca pele toma contornos rosados da vida.
Os olhos novamente brilham, o frio verde pálido se esvai, voltando à brilhante cor do mar.
E a suave boca delineia sorrisos de sinceras fingidas seduções.

E a próxima vítima já foi escolhida...
Qual o resultado?
Talvez apenas pele. Talvez apenas paixão. Talvez apenas química. Talvez apenas eu.

Um passatempo de línguas e braços e pernas e cabelos.
Passando agora meus segundos de vidas entre sussurros e gemidos. Querendo divisões de suor e calor. Entre camas de lençóis finos sufocando com beijos de paixão. Sem amor ou contradições.

Apenas um vampiro. De fria branca pele, claros olhos de lua e sangue quente. De olhar fugitivo de lobo e lábios sanguíneos. Com desejos lascivos, suores salgados, ritmos alucinados.

Salivando pela sofreguidão de uma doce fatal mordida...

9.10.2004

Suave sedução

Sentimentos maníacos e insensatos se desvendam explosivos intensos insanos. Como frio gelo em minha quente pele.
Tudo porque sou toda tua. Toda minha. Toda nua. Por fascinação e eterna loucura liberta por beijos, pele, lábios, línguas e bocas.

Com a nudez da minh'alma, quando livre de mim e prisioneira de ti. Com a nudez do meu corpo, pela minha branca pele - curvas boas - pêlos macios - dentes alvos - olhos verdes - pernas longas - finas mãos. Com a nudez de mim e de ti.

Tudo num rubro quarto vazio. Chão e céu azul. Livros pelos cantos e o frio lá fora. Aroma de sândalo e ânsia em mim. Olhares percorrem meu corpo, cheiram minha pele de incenso e beijam minha boca de sangue. Mãos se roçam como línguas insanas e se beijam como palavras em frases dementes sem nexo.

Suave sussurro sensual suplica sedução.
Shhhhhhhhhhhhh..... que a solidão dorme e o silêncio é leve ainda...

9.08.2004

Sob um olhar felino

A primeira coisa em que ela pensava todas as manhãs, ao acordar, era nele. Quer dizer, pensando bem, era a segunda. A primeira ainda era que precisava descobrir uma forma de fazer aquele gato desistir da mania de acordá-la com lambidas. Mas passado o episódio felino diário, era ele que ocupava seus pensamentos. Naqueles instantes em que precisava decidir se continuava dormindo ou levantava, enquanto expulsava o bichano, limpava o rosto com o lençol e abraçava o travesseiro... era apenas ele que ela desejava. Todas as manhãs, desde que o vira pela primeira vez, tinha o mesmo ritual: Lamentar. Lamentar que ele não estava ali quando ela acordava. Lamentar que o travesseiro não retribuía seus abraços da mesma forma que ele. Lamentar que a roupa de cama não tinha o perfume dele. E lamentava que nos últimos tempos, o exemplar do sexo masculino mais assíduo em sua cama não pesava mais de quatro quilos e tinha a língua áspera.

Mas aí esses momentos de lamentação passavam e ela levantava. Pegava o gato no colo, que a essa altura explorava os teclados do computador, dava-lhe um beijo carinhoso e o colocava na sala. Ia até o banheiro e se olhava no espelho. Como sempre fazia, tentava arrumar o cabelo desgrenhado pela cama, lavava o rosto e olhava profundamente nos próprios olhos. Todas as manhãs, desde que o conhecera, era o mesmo ritual: Lembrar. Lembrar que os olhos dele eram da mesma cor dos dela. Lembrar que o olhar dele sempre lhe dava a impressão de esconder algo. Lembrar que, fora idêntica cor, os olhos dele jamais prometeram o mesmo que os dela. E lembrava que possivelmente via e lembrava tudo isso porque ainda não tinha posto os óculos.

E então os instantes de lembranças passavam e ela precisava começar o dia. Dava comida e água ao bicho. Arrumava a cama. Abria o guarda-roupa e se vestia, sem pensar se a calça combinava com a blusa. Pegava o gato, que a essa hora já acabara de tomar seu café da manhã, e sentava em frente ao computador. Acariciava o felino enquanto esperava o computador ligar. Todos os dias, desde que o beijara, seguia o mesmo ritual: Pensar. Pensar que não podia, não queria, não iria ligar para ele para conversar. Pensar que não importava o que ele prometesse, ela jamais voltaria, não depois do que ele fizera. Pensar que, acontecesse o que acontecesse, ela nunca mais se deixaria levar pela paixão, pelo carinho, pela falta que sentia dele para perdoá-lo. Pensar que, não é porque ela estava apaixonada que admitiria isso a ele. E pensava que precisava comer alguma coisa e parar de pensar.

Só que aí aconteceu uma coisa diferente desde que ela o encontrara e que fugia aos rituais: o gato acordou do sono, da forma peculiar que fazia quando algo chamava sua atenção. E ela ia acalmá-lo, mas o bichano correu em direção à porta. E a campainha tocou. E nessa hora, diferente de todas as manhãs de todos os dias, ele estava do lado de fora. E ela tentou fingir um olhar indiferente, e ele mentiu que os olhos vermelhos eram porque acordara a pouco, e ele fingiu que passara por ali por acaso, e ela mentiu que sequer esperava que ele aparecesse. E então aconteceu o que os dois temiam: o silêncio gritou alto.

E ele disse sinceramente que sentia falta dela. E ela respondeu francamente que não podia confiar nele. E ele pediu fielmente que lhe desse uma última chance. E ela pensou e lembrou o quanto lamentou por ele. E descobriu que estava cansada de tantas lamentações, de lembranças e pensamentos. E ele lhe deu aquele olhar de quem espera uma decisiva resposta. E ele ainda não sabia, mas ela já decidira.

Na manhã daquele dia, contrariando os rituais que seguia desde a primeira vez que o vira, desde que o conhecera e o beijara, naquele instante, quando o encontrara, ela decidiu: Lembrar, e depois lamentar e depois pensar? Não mais. Dessa vez ela agiria. Pegou as chaves do pequeno apartamento que estavam em cima da mesa. Fechou a porta. Segurou as mãos. Olhou no fundo dos olhos dele. Sorriu e declarou: “Tens um dia para me convenceres que mudastes e que devo confiar em ti”. Ele respirou fundo, sorriu, e pela primeira vez, os olhos dele concordaram com o que as palavras diziam: “Vou fazer o possível”.

E os dois saíram, cada um prometendo a si que fariam tudo que podiam para que desse certo dessa vez. E enquanto a porta do elevador se fechava, um par de olhos azuis os observava. Era o gato, que sentia que na próxima manhã não iria acordar sua dona com seus carinhosos e ásperos beijos...

9.06.2004

Feliz aniversário

- Chove demais hoje, não acha?
- A chuva nada mais é senão o céu chorando.
- E porque o céu chora?
- A pergunta correta seria: “Por QUEM o céu chora?”
- Mas então me diz, por quem ele chora?
- Na verdade, minha criança, não é o céu que chora. Somos nós que choramos, e o céu é apenas uma extensão de nós mesmos. E sendo o céu, nada mais que nós, a pergunta volta: “Por quem NÓS choramos?”
- E por quem nós choramos?
- Nós, meu querido anjo, só choramos por nós mesmos. Choramos por nossas conquistas desgraçadas. Choramos porque somos felizes e sofremos; choramos porque somos como somos. Choramos porque amamos.
- E porque amamos?
- Amamos, meu doce amor, porque somente quem ama é capaz de fazer perguntas tais como “porque o céu chora”.

E então tu me dissestes que o céu chorava por amor. E que nós sofríamos quando chovia porque, na realidade, quem derramava lágrimas sobre o mundo éramos nós. E foi aí que descobri porque a chuva sempre foi minha grande obsessão. Porque sabia que quando o céu chorava, era por amor a mim. E quando as gotas de chuva lambiam meu rosto, era ele que chegava a mim e me tocava.

Eu lembrava todos os loucos monólogos (?) que tínhamos enquanto bebia um café frio e olhava mais aquela chuva pelos vidros sujos de lugar algum. Enquanto isso, o resto do mundo reclamava do frio amor. E as pessoas se irritavam com as poças de amor líquido que se formavam nas ruas. E o céu chorava mais pelo sentimento que elas não entendiam.

E ao perceber isso, agora era eu que chorava. Chorava por ver que o mundo e as pessoas não viam o gesto triste do céu, de derramar amor em forma de chuva. E lá fora ainda chovia. A vazão de emoções liquefeitas aumentava. E eu não podia ficar seca e protegida, ao ver que o mundo não compreendia que o céu chorava.

Mas me deixava ficar. E o café esfriava ainda mais. E os vidros ficavam cada vez mais imundos. E aquele lugar qualquer se enchia de pessoas que não entendiam a chuva. E eu não podia sair. Tenho que esperar... Mas acabo o café e preciso decidir. Lá fora chove, mas eu entendo. Aqui dentro é quente, mas sofro. Sofrerei também lá fora?

- Faltou uma parte do teu presente de aniversário.

Ele abre a caixa. Dentro, um pequeno frasco com gotas d’água.

- É o meu amor por ti.

Ela vai embora. Sempre chorando. Ele segura a caixa.
Lá fora, não chovia mais. Só aqui dentro.

Obs. análogas.: “Dias de chuva são tão bons quanto dias de sol. Ambos existem"

9.04.2004

Demente fantasia

E eu quisera saber quando essa necessidade infame e invisível e inútil e insana por escrever começou a se alastrar pelo meu ser e vida e alma. Nunca penso ou domino as palavras que se desenham sobre o papel numa caligrafia sofrível e ilegível.

Quando a mão segura o lápis sôfrega. As unhas arranham a madeira macia. O rosto repousa nervoso sobre o bloco, e o cheiro frio e ácido e insensível do papel invade minha narinas até o cérebro. E o som imperceptível ritmado do grafite desnudando e desvirginando a folha virgem branca confundem minha mente e apagam o mundo.

Fios de cabelo perdidos sobre a mesa formam desenhos vermelhos amarelos marrons como sonhos abstratos finos e ondulados. E se misturam e mesclam à letra irregular e aos olhos inquietos de mim que escrevo. Quando sons loucos e sem nexo como as palavras surgem, tal qual vampiros de olhos de fogo e dentes de sangue, quando vozes roucas soam, interrompo o comportamento viciante e fascinante de escrever.

O nada sobrevoa a mente, a mão não pára, o cansaço chega, calos se formam a pele sangra do contato constante com o papel os olhos quase cegos se perdem nas palavras cada vez mais sem nexo cada vez mais nervosas cada segundo mais obsessivas impulsivas insuportáveis incontroláveis inomináveis.

E finalmente tudo se torna sem sentido e sem razão. Apenas mais uma obsessão. Mais uma compulsão. Vital. Mortal. Irreal. Amoral.

9.03.2004

Falta de mim

Vejo dias e anos e meses e horas e noites se irem. E esse tempo agora é assim. E chuva e sol e vento e calor passam. E o tempo continua assim. E sempre meu. Unicamente meu, formando minha vida meu ser meu ter meu ver.

E as portas se abrem e se fecham. E pessoas passam. Rostos conhecidos e não. E os dias passam, iguais e não. E preciso sair. E não quero, e meus olhos enchem d'água. E tento... tento esconder! Olho o céu as nuvens, mexo o nariz a boca. Deus meu, como é difícil!

Saber que não volta mais. Que fica só na memória. As adoráveis irritantes manias. As implicâncias bobas. As risadas boas. As confissões tolas.

Saudade de mim. Falta do tempo daqui. Falta de mim. Saudade do tempo daqui. Minha saudade daqui. Tempo em falta de mim.

Tempo de saudade do meu aqui em mim.

Obs. análogas.: Sei que meu tempo aqui acabou. Mas vou sentir tanta falta!

9.02.2004

Céu azul, mon amour

Meu ódio é maior que meu corpo como teu ego é maior que teu sono, sono de quem não dorme porque sequer ama. Dias de sol.

Minha fúria é menor que meu medo e teu medo é muito maior que prazer, prazer de mim que não sei o que querer. Trovões e nuvens.

Tua vida é a minha porque assim a quisestes. Tua vida de homem é a minha de mulher, céu azul. Por mim e por ti e por eles e por nós eu entendo que jamais seremos mon amour.

Venenos entram em mim. Minha boca minhas veias minha pele meus ouvidos.
Cianureto de lembranças recordações livros tolos conversas fúteis beijos falsos abraços negados olhares roubados.

Teu olhar frio verde-pálido me enoja me detesta me anseia me deseja me repulsa. Como vidas vãs que decepam sonhos e outras vidas.