12.16.2004

Mais que um sonho

Uma noite a lua brilhou mais que podia. Uma tarde as estrelas se esconderam antes de aparecerem. Um dia o sol não nasceu como devia.

Numa sala vazia de uma casa cheia. Naquele olhar ardente de um rosto tímido. Daquela pessoa serena numa alma sonhadora.

Dias para sonhar, noites para lembrar... minutos para contar, horas a se arrastar.
Olhares para procurar, peles para sentir. Braços para tocar, línguas para amar.
Estrelas num piscar, pêssegos no corpo, gosto de cerejas. Clichês existem, queira ele, queira ela. Quero ele, quer ela.

Quero noites, quer luas? Queres estrelas como o sol? Quer pêssegos em mim, sabores em ti, línguas afins?

Eu te quero para mim.
Com quaisquer quereres enfim.

Aquele sonho em mim.

12.05.2004

Amante vida

Por amores fáceis. Alguns amores fúteis. Amores simples. Amores grogues. Quase amores. Nenhum amor.

Vida sem amor. Falta de vida.
Falta a vida.

E então surgem doces paixões. E vai aumentando, colorindo... amando. Vai se tornando indispensável imprescindível irrecuperável impossível inesgotável inalterável. Tudo se torna irreal. Surreal.

Tudo se torna uma vida.
Se torna sua vida.
Minha vida.
Nossa vida.

Por isso algumas vidas fáceis. Algumas vidas fúteis. Vidas simples. Vidas grogues. Quase vidas. Nenhuma vida.

Obs. análogas.: Meu amor é minha vida. Eu sou a tua. Teremos nossa vida... Para sempre minha vida. Para sempre tua vida. Sempre NOSSA vida.

11.25.2004

Porquês dela e dele

Por que teu beijo me lembra cerejas?
Por que tua pele é tão macia?
Por que eu te gosto sem saber porquês?

Por que o céu fica cinza, e porque o vento não é visível?
Por que para mim, agora, as fadas terão sempre asas azuis?
Por que a luz me cega, e teu olhar me ilumina?
Por que eu te sinto tão assim, sempre a perder de mim?


Por que um abraço e um sorriso me fazem rir como tola?
Por que tolices são belezas em ti?
Por que tua beleza é tão sonhadora?
Por que sonhos são sempre etéreos?
Por que seriam etéreas minhas asas?

Por que eu saio de ti e já me sinto sem mim?
Por que eu te gosto e nem sei que tens?
Por que pergunta alguma precisa ter respostas?

Por que respostas soltas precisam de perguntas?

Porque eu te adoro mesmo assim. Porque eu te quero ainda assim.
Porque eu te adoro mesmo assim.
Porque eu te quero ainda assim.

Porque somos juntos, tu em mim, eu em ti.

11.22.2004

Saberei se sei

Eu não sei a cor dos olhos do amor da minha vida. Mas sei que quando os vejo, vejo a mim mesma. O que sei é que os olhos dele têm um brilho diferente, um leve jeito cafajeste e carinhoso.
Eu não sei como são os cabelos dele. Mas sei que ele não se importa que eu brinque com eles por horas, em silêncio, e esqueça até de conversar.
Eu não sei qual o formato de suas mãos. Mas sei que são macias, e que com elas ele toca as minhas, assim, distraidamente, só para que eu saiba que ele está ali.
Eu não sei como é sua boca, se os lábios são finos ou carnudos. Mas sei que, quando a boca dele encosta a minha, derreto e sou toda dele.
Eu não sei se o beijo dele é calmo ou daqueles cinematográficos, de tirar o fôlego. Mas sei que ele abre os olhos de vez em quando, e eu também, e aí sim, sei tudo o que ele pensa, tudo o que ele sente.

Eu jamais soube o que sei. Mas sempre soube o que não sei. Não sei se vou encontra-lo. Não sei se ele irá me encontrar. Não sei se nos reconheceremos, não sei se seremos um.

Será que nosso beijo é assim, como eu em mim? Será que tuas mãos são assim, suaves só para mim? Será que seremos assim, tu em mim, eu só para ti, tu só para mim?

Será que sei? Será que saberei?
Obs. análogas.: Escrito tanto tempo atrás... revisto tão logo após. Premonição? Intuição? Só sei que parece muito assim...

11.16.2004

Saliva em desespero

E quem já adorou e perdeu sabe o que é um beijo desesperado. É a última possibilidade. A entrega quase total. O desejo de continuar, mesmo sabendo que não existe mais. Que talvez nunca existiu. Que possivelmente nunca existirá.

Quando a boca trêmula, salgada das lágrimas toca a outra boca... E nada é coordenado, o instinto toma conta. As mãos agarram a cabeça que sequer se move. A outra boca segue impávida. A língua tenta, procura corromper, provoca... e nada consegue.

O desespero do fim passa através da saliva. Os lábios tremem, os olhos choram. Tudo que sabem fazer. Tudo que podem fazer.
O último olhar é o pior de todos. Acabou, nunca existiu. O olhar de pena e compaixão do outro fere mais que qualquer arma. Machuca e dilacera. Ainda mais. Sempre mais.

Os braços tombam, o olhar procura o chão. Acabou, acabou! Será que existiu? Será que fui apenas eu?

Saliva, dor, amor, perda.
Perdendo amores.
Sofrendo dores.
Querendo ardores.

Salivando amores.

11.11.2004

Sem fim

Quanta dor pode haver dentro de alguém.
Quanta força pode ter no coração de outrem.
Quanto amor pode conter no peito de todos.

Quantos livros ainda lerei? Quantos lábios ainda tocarei.
Quantas palavras ainda escreverei...

Acordei com medo da vida. Acordei com pavor da morte.

Fantasmas incertos rondaram minha cama.
Feridas fechadas se revelaram em sonhos.

Quanto sabor pode ter aquele beijo?
Quanto perfume ainda ronda aquele peito.
Quanta paixão ainda me corrói por todos aqueles medos.

Gritos insanos ainda ouço por causa de tantos erros. Sentidos dormentes ainda zelam por uma consciência.
Não sei se enlouqueço. Não sei se deito, durmo... sequer sei se morro.
Vivo dias sem fim, vivo vidas sem mim.

Quero lágrimas para mim.

11.08.2004

Começo da noite

E o céu brincou com feixes de luz daquela cor que ele diz minha. Só para me provocar. Só para me lembrar.

E eu olhei o passado distraído, e admito que tive vontades. Era belo, apetitoso até. Mas era passado passageiro, ambíguo que sempre prometeu e jamais cumpriu. Como todos os outros passados.

Tudo foi apenas um presente. Uma lembrança. Um aviso.
Doce, como ele. Alegre, como ele. Dedicado como ele. Com aquela sutileza dócil que só ele.

Tudo calmo como poucas vezes antes. Eu, ele, o mundo, nós.
O passado fez de conta que não me viu. Fingi também. Brigas sem sentido nem razão nem rosto continuavam como sempre. Sorrisos bobos em horas loucas também.
Tudo como sempre. Louco e comum e irreal e utópico e indescritível e inesperado e... inconstante e imprevisível. Como eu. Como ele (?).

E então o céu escurecia, e os feixes morriam. Só para me dar saudades. Dissolviam o passado. Eu tremia. Era o fim do dia.

10.31.2004

Disléxico. Sem nexo. Sexo.

Foi por distração que aconteceu. Estava ali, sempre esteve. Bem perto dos seus olhos. Tanto que se podia ver a cor. Mas foi só quando chegou perto demais... quando pode ver exatamente as cores... exatamente os pontos amarelos e marrons... as linhas esverdeadas...
Foi ali.

Que o jardim teve cores mais claras. Que os sons eram mais suaves. E tudo pareceu... anormal. Diferente de um jeito bom. Tão complicado e tão simples. Tão clichê. Pareceu andar devagar. Pareceu que o vento sussurrava só para eles. Pareceu que o sol se escondia, brilhando só por eles.
Pareceu perfeito.
Pareceu.
Sempre parece.

- Porque libélulas são assim? Porque são tão leves, tão... tão libélulas?
- São pequenas fadas. Que fogem de nós. Nunca se consegue pegar uma... ficam apenas ali. Para que vejamos toda sua forte beleza frágil.

Beleza como aquela. Como a que surgia ali, naquele dia de sol atrás de nuvens, de brisa com cheiro de sal.
Beleza de dias assim, sem ter porquês.
Beleza frágil, que foge das paixões sanguíneas.
Beleza que estupra a própria beleza, tão fascinante se é.

Tão fascinante se pode ser.
Tão fascinante é.

10.27.2004

Táctil desejo

Ele dá a cara para bater. E por isso algumas vezes lágrimas caem. E ele sequer esconde. É o preço que paga por dizer o que sente quando a maioria acha que devia esconder. "É cedo demais, é tarde demais..." é o que todos dizem.

Só que então ele pensa: "e o que é o tempo?" Quem estipulou quando é cedo, e quando é tarde? Teorias científicas dizem que o tempo não existe. Ele não sabe nada de física e ciências. Ele só sabe que o AGORA bate na porta forte demais, e ele vai abrir. Passado? Fica lá. Não dá para mudar. Futuro? Vai vir. É só esperar.

Porque é hoje que acontece. É esse segundo que ele vive, é agora que o sangue corre, é desse instante o desejo. O sol bate no rosto daquele jeito especial só nesse momento, depois acabou. E não acaba para sempre. Nunca acaba. Existindo uma vez, existe sempre! Vivo. Esquecido ou recordado. Salvo. Guardado e livre. Sagrado.

O presente-tempo é o presente-presente. Sentir cada toque suave da pele dela. Aspirar o perfume oriental nos cabelos dela. O sabor agridoce dos lábios. É pelas sensações tácteis que ele vive. É pelas visões dos olhos verdes-cinza dela que ele continua olhando o céu poluído cada dia. É pela promessa de acariciar a pele fria dela que ele levanta e vai.

Pela branca pele fria. Pelo inocente sorriso. Pelo olhar felino. Pelos dentes quase grandes demais. Pelas unhas afiadas.
Desafiando brandas inocências ferinas de sonhos deles.
Por desafio ele vive.
Por inocência ele resiste.
Por desejo ele continua.
Pelos sonhos ele luta.

Resistindo contínuas vidas lúgubres.
Por tudo e por nada.

Pela confirmação de um presente futuro.

10.23.2004

Interrogação

Será? Será que vale? Será que continua? Será que é tudo de novo? Será que é tudo diferente?

Menininha medrosa. Que atravessa a rua sem nunca olhar para os lados. Mas deseja um corpo sem aquela coisa que pulsa e bate dentro dela. E quem em cada batida parece dizer: "es-tou-a-qui.sem-pre-a-qui-sem-pre-aqui-não-es-queça-de-mim".

E cansa querer sempre tudo de novo. Mas a teimosia não deixa desistir. A curiosidade é maior... Ah deus, quem dera conhecer o fim das coisas. Saber que têm um fim. Porque nunca tem, e quando tudo acaba, volta para o começo, e continua num círculo tortuoso e viciante e empolgante. começa acaba quem sabe volta

Odeio quem sabes. Detesto talvezes. Repugnam não saberes. Brigo com certezas e convicções.
Sei lá eu o que quero?

Sei lá eu o que não quero?
Ah... só um fim. Só saber se há fim!

- Para quê saber final? Corta tua nojenta exagerada empolgação. Diminui teu insuportável angustiante sofrimento.
- Mas...
- Mas nada. Aí quem acaba é você. E eu também.

10.20.2004

Vampírico final

Morde as mãos de dor.
Que nelas o sentir é físico, e a mente esquece do cigano coração, e se preocupa com o sangue que escorre pelos dedos.

Sangue vermelho rubro escarlate. Forte como jamais foi e sempre quis. Manchando o frio chão de dor e emoção.

Os alvos dentes rasgam a fina pele. As frágeis veias azuis despejam o espesso líquido que desliza pelas unhas, penetra em outras feridas, apaga cicatrizes, marca brancos braços, dóceis pernas e corações alheios.

Inocente instinto leva o vital soro à boca. O desejo entre os pálidos lábios se acende com o salgado calor. Bebe com sofreguidão desejo asco. Tem o sabor de toda história. SuaveSedosoNecessárioRepulsivo.
Vicia e repugna.
Ânsia de vômito e sexo.

Gotas domesticadas escapam pela boca agora carmim. A poça escarlate aumenta.
A boca sorri. Mostra dentes manchados. O peito não dói mais. Nunca mais.
A pele cada vez mais pálida. A poça pára de crescer. As mãos não dóem mais. Nada mais dói.
Sem dor. Sem sangue. Sem amor. Sem vida. Sem nada.
Nada mais. Nunca mais.
Jamais?

10.13.2004

Nas tuas mãos

Porque agora tu escolhes. Uma garota de vinte anos, que sabe (sabe?) o que quer da vida. Que se conhece bem demais, e por isso mesmo não garante nada e promete tudo. Que age totalmente por instinto e sentimento e paixão. Que não quer se casar, mas quer passar o resto da vida com o grande amor. Que não quer filhos, mas já escolheu os nomes.

Que é chata, teimosa e sonhadora. E tem os pés no chão, adora rir e tem paciência. Que chora por amor e por raiva. E consola o mundo por ser como é.

Que na verdade é jovem demais e não sabe nada. E que acha que sabe tudo.

Que escreve tudo isso num sincero impulso, olhando para um céu nublado e sem nenhuma graça. E ainda assim, lindo aos olhos dela. Que tem medo demais. E que mal sabe falar, apenas olhar.

E tudo isso porque agora ela se despiu de si mesma, e és tu que escolhes.
Porque ela já escolheu. E agora só faltas tu.

Obs. análogas.: “E eu que disse que não ia me apaixonar... nunca mais... na vida...”

10.10.2004

Medos

Para que sentir medo? Se esse sequer é um sentimento, é apenas uma reação química do teu cérebro, que te inibe corrompe envergonha diminui enoja?

Instintos existem para serem sentidos, obedecidos. Uma vida perfeita de nada te serve sem paixão, sem tesão. Tua insônia é por causa de ti, não de mim. Tua vida é tua, nunca minha, nunca nossa. Minha vida sou eu, sempre eu, jamais alguém.

Teu medo é de uma vida imperfeita... vida essa que já tens. Para que correr atrás de falsa felicidade? Se sabes que podes tê-la real tão fácil...
Foges para dentro de ti, querendo fugir da vida. Mas essa continua lá, continua aqui, te olhando, espiando, acusando... sabes tão bem que precisas encará-la, e te dá tanto medo!

Porque medo? Sentimento inútil que te prende em tentáculos doentios. Podes ter ventos ardentes de alegria, e escolhes a solidão sanguínea de ti mesmo. Teus delírios de vampiro te impedem de sentir. Paixão não dói. Amor não destrói. O sol só queima minha pele, não nossas almas, lembra?

Não desiste. Não desista de mim, e eu prometo que não desisto de ti. Temos espírito cigano e solitário. Em carentes sonhos lentos crio fantasias de mim e ti.

Me deixa te ajudar.
Deixa te querer.
Queira deixar.

10.08.2004

Nunca sempre

Jamais consegui esperar. Sempre acreditei que meu relógio andava mais devagar que o normal. Seu vidro é cheio de minúsulos arranhões. São as feridas de minhas unhas, a prova física da ansiedade.

Ando esperando os finais de semana. Descanso da vida. Descanso do mundo. Descanso até de mim. E em outros tristes braços, esqueço o irreal que me atormenta. E lembro do frágil real que me consola...

Me olho e vejo estranhezas. Ainda é o mesmo corpo. Ainda são os mesmos olhos. Ainda é a mesma pálida pele. Mas dentro daqueles raios verdes de meu olhar há novo algo estranho. Que não compreendo, e penso fundo se quero conhecer. Tenho sentimentos que não suporto. Sinto vontades que quero e não posso. Ainda não posso.

E toda essa minha ansiedade mata. Toda essa vontade nunca soube esperar. Sempre foi tudo hoje, tudo agora, tudo sempre, nunca nunca. Porque agora sei que preciso tudo nunca, nunca hoje, agora sempre... e então dura. E vai ser como queremos. E vai ser sempre sempre e não mais nunca nunca...

Mas os ponteiros se arrastam... e a areia não acaba... e a lua não chega, e o sol não se põe...
E meu relógio se machuca cada hora mais.

10.03.2004

Trem lotado

Pôr do sol alaranjado. Visto através de outras pessoas. No movimento ritmado e constante de um trem lotado de todo tipo de gente. Mas já não vejo mais. Alguém à minha frente. Desisto e sento. Não há lugar. Apenas o chão. Sento. Meu jovem cansado corpo não agüenta mais ficar em pé. Quer se jogar no chão, e dormir. Quer sonhar. E ter a vã esperança de sonhar com alguém tão longe.

Daqui de baixo as pessoas não me olham. Estou abaixo deles. Sou inferior. E eu as vejo em seus medos. Na forma de se equilibrarem. Jogando o corpo sobre um pé, depois outro. E o trem lota ainda mais a cada parada. E em meu frio chão reconheço como só posso ser. Um fio de janela! Encontrei uma pequena fresta de mundo. Lá fora uma borboleta. E é bonita, não bela. Tem a vulgaridade das mariposas urbanas. Suas asas não refletem o fraco brilho do sol se pondo. A poluição se entranhou em seu frágil corpo. Mas me agradada olhá-la. É ambiciosa, a pequena! Quer alcançar essa minhoca de metal cheia de carne humana com seu etéreo corpo.

Ela desaparece.E aqui dentro entra cada vez mais gente. E um frio vento de fim de primavera também. E são tantos cheiros! São tantos seres. São tantas cores? Enxergo tudo por um labirinto de pernas. Mas Ariadne alguma me prende a fios. Quão triste felicidade pode haver na vida de um invisível... Escondido na sustentação dos sonhos e desejos de todos. Com a visão entre os quereres de vários.

Eu os incomodo aqui. Quisera não. Será? Gostaria mesmo de não incomodá-los? Não desejo eu interromper a pacata e fria e previsível fútil vida deles? Porque os incomodo sentada no chão de um trem lotado. Desperto curiosidades. Quiseram eles estar aqui. Escrevendo desejos que não sinto. Desejando quereres que não tenho. Querendo sentir escritos vis.

E há uma moça à minha frente. Ela carrega um presente. Está embrulhado num pobre e vulgar papel marrom-horrendo-brilhante. Expressão sombria. Me fulmina cada vez que levanto o olhar. Sei que pensa porque não me levanto. Pensa se não sei que atrapalho. Sim, tudo isso vejo. Tudo isso sei. Sabe ela o que quero? Saberá ela o que desejo?

Sabe ela que aqui sentada, escrevendo pensamentos tolos e divagações vãs me sinto como eu. Na companhia de mim mesma. E sinto meu ser sem problemas. Sou só uma garota sentada no chão de um trem que esvazia. E enche novamente. E lá fora há tantos gritos, tanta música, tantos sons. Bem diferente de aqui dentro.

Aqui não falam. Aqui apenas passam. Não deixam nada de si. Porque agir assim? Talvez porque aqui apenas passem. Não querem nada daqui. Não deixam nada de si. E o tempo passa, como eles e elas. Tudo vai acabando. Tudo vai esvaziando. Meus olhos cansam. Minhas mãos minhas costas minha alma minhas lágrimas meu sorriso meu amor meu silêncio. Tudo dói. Tudo me dói.

Eu me dôo.

Poesia vital

Porque eu já amei mais do que consegui agüentar. Já odiei mais do que admito. Porque já chorei mais que podia, e ri até a boca doer. Já pedi beijo. Já chorei por amor, por amizade, por raiva, para implorar perdão. Já quis fugir de casa para nunca mais voltar. E ainda continuo lá. Já me perdi na cidade, com vergonha de perguntar. E porque já passeei por cemitérios, naquele silêncio consolador. E já me queimei com fogo e roí as unhas e provei meu próprio sangue. E me obriguei a esquecer pessoas que não deviam ser esquecidas. E esqueci outras que quero lembrar. Já consolei amigos de toda uma triste vida. Já chorei por pena. Já menti por amor. Já falei sozinha. Já escrevi poesias fúteis e tive pesadelos.

Tudo porque sequer sei quem sou.
Talvez todos esses "já". Talvez nenhum "nunca". Talvez nunca. Talvez já.

Nunca se vá.

9.28.2004

Nublado dia perfeito

E ela acreditava que não existiam dias perfeitos. Aquele também não foi. Porque o céu era cinzento e nublado como os olhos dela antes dele. E o cansaço dos corpos não lhes permitiu ainda mais paixão.

Mas mesmo assim o calor do corpo dele aquecia a fria pele dela como nenhum outro antes. Os macios beijos a faziam esquecer as dores de pouco tempo atrás... e seus braços a protegiam daquele surdo silêncio dentro dela.

E apesar de tudo antes ela ainda teima em querer amar. Porque nos doces olhos dele ela viu um outro começo. Calmo e maduro e amante e dedicado como ele. Libidinoso e urgente e forte e sensível como ela.

Agora ela só pode esperar. Desejar. Imaginar. Relembrar. Agora ela só pode querer. Só amar. E é exatamente isso que ela quer.

Porque hoje, só depende dele...

9.24.2004

Sem fôlego

Porque as imagens em nossas mentes são apenas correlações sobre tudo que vivemos e desejamos e almejamos e lutamos e pensamos e que essas imagens nada mais são senão livres associações para todos os dias para que não sejam apenas dias normais para que fujam de todo lugar-comum e voem até o incomum estranho e assim as vidas seguem nessas imagens loucas que jamais saem da mente e nos vigiam e coordenam a seguir vidas sempre de formas comuns mas que também nos obrigam a seguir a vida de formas mais loucas e mais interessantes para que cada dia não seja igual a todos os outros e para que um desses loucos dias possam encontrar ou aquela pessoa quase do seu lado e que pode e vai modificar intensamente tua existência por um simples e aparentemente inútil detalhe e esse alguém estava ali perto no exato momento que tu estavas inteiramente disposto a mudar toda tua vida por um sorriso e naquele momento que deixas na mão do destino e apostas "se olhar pra mim e sorrir, eu posso" e acontece e tua vida muda e tudo muda e tudo agora parece rápido demais sem pausa sem vírgulas sem respirar sem nada e parece que até o fôlego vai embora e tudo escurece e tudo desaparece aos poucos cada vez mais escuro e escuro demais e estranho e solitário e quente ao mesmo tempo mas com certeza frio e inóspito e tudo tudo tudo mais vai embora e começa e acaba e é tão confuso que nada se entende até que...

9.22.2004

Suposta declaração

Começou como começa tudo. Foi só um olhar. Pupilas se encontraram. E no encontro, o pensamento foi o mesmo.

Do medo de repetir os erros de tantas todas vezes antes.

"Sabe qual é o medo? Me magoar mais uma vez. Arriscar tudo de novo, sofrer mais outra vez. Não é nem me magoar, é te magoar. Medo por mim não tenho mais não. O que não posso é fazer outra pessoa infeliz. Tudo porque me conheço. Porque sei de toda minha passionalidade. Sei de minha personalidade cíclica. Do tempo que levo para recuperar. E que recupero.

E sabe o que não quero? Me apaixonar. E sabe o que eu quero? Apaixonar-me. E sei, é impossível entender. Não quero sofrer tudo mais uma vez. Quero arriscar tudo. E sentir-me a paixão mais feliz do mundo. E sentir outro alguém também sentir assim por mim. Sabe o único que sei? Que não queria jamais que soubesses tudo isso.

Nos meus frágeis saberes divago avisos. Grito que saibas que sou areia movediça. Imploro tempo de correr para bem longe de ti e de mim e de nós.

Porque sou romântica sim, e detesto admitir. E que não estou ainda apaixonada. Mas falta pouco demais. E que saibas que tens todo o direito de não entender nada disso, porque mesmo eu não entendo.

Tudo para entenderes que sou tão mais louca que aparento.
Porque outro traço tão marcante quanto teimosia e loucura, é essa estranha mania de ser sincera demais em todos momentos."

Porque sempre todos amam alguém mais que aos outros. E talvez sejas tu. Ou eu. Ou ninguém. Ou todos. Ou somente nós.

9.17.2004

Felicidade homeopática

Felicidade boa é em pequenas doses. Aquelas homeopáticas, sabe? Meio naquele estilo "amar é..." das figurinhas infantis. Felicidade também é... pequenas coisas.

Cantar uma música boba com bons amigos. Canções que só fazem sentido naquele insensato grupo.

Abraço apertado que quase sufoca naquela amiga querida que não vê há séculos.. ou há um dia.

Uma mensagem bobinha, que fez ver que a pessoa especial lembrou de ti.

Telefonema no meio da madrugada dos seus amigos bêbados, te convidando para mais um copo. E não interessa se tu estás de pijama e são cinco e meia da manhã. Só lembraram de ti.

Um "eu te amo". E sequer é do homem da sua vida, e sim do amigo do fundo do coração, que implica contigo a todo instante, e num segundo de descaso deixou escapar todo o carinho fraternal que sente.

Um beijo estalado na bochecha. Aquela música que adoras e toca no rádio naquele exato perfeito momento. Ficar à toa com amigos, no solzinho de primavera. E pode ser sim, aquelas besteirinhas auto-ajuda de comercial: de aproveitar cada momento.

Porque ninguém te disse que felicidade é eterna. Ou que a vida seria um mar de rosas. E tudo porque lentes cor-de-rosa machucam os olhos. E para ver o lado bom, algumas vezes tem que se passar pelo ruim, e pelo péssimo, pelo horrível e pelo assombroso. E descobrir que no fundo do poço sempre há alguma luz.

Aos poucos é tão melhor... é-se feliz sem sequer notar. E aí um dia se acorda, e se pensa na vida atual. E é do jeito que queria ser. E então é bom. É como só podia ser.

9.16.2004

Sem voz

Esse é um momento de total e absoluto ódio. De indignação total. É a primeira vez que coloco dois posts no mesmo dia. E um nada tem a ver com outro. Mas essa minha vontade de atirar o computador pela janela é gigantesca. Sentimentos quase assassinos estão à flor da pele.

Daqui a pouco me arrependo de escrever isso. Foda-se. Jamais escrevo palavrões, os acho revoltantes. Mas neste estado raivoso de indignação, é só o que me serve.

Raiva de mim, do mundo em geral. Que vontade de esganar alguém!!!!!!!
Porque essa mania de achar que o mundo é perfeito? Porque essa fixação por buscar a felicidade eterna? Porque querer tudo agora, nesse segundo, nesse instante, para ontem, da forma perfeita e impossível e irreal e inesgotável e inalterável?

Sentimento de imbecilidade. Da consciência que nada posso fazer. E dessa vez não posso mudar meu seco destino.

Garotinha mimada que não pôde ter a vida de conto de fadas que escreveu na infância.

Mas em pouco tempo tudo passa. Sei que passa. Sempre passa...
Até o próximo telefonema.

Obs. análogas.: Meu lindo... eu te ama(va) tanto! Porque não viestes a mim? Porque fizestes isso? Eu sempre estive aqui... acabar com tua vida... porque, porque?? Porque me deixar sem ti??

Paixão falsa

Não me julgue, que jamais te jurei ser perfeita. Nunca te prometi ser sincera, sempre te mostrei esconder segredos. Te deixei vislumbrar sombras da minha inquieta alma. E apenas o lado escurecido e inocente conhecestes. Onde o sol ou luz alguma penetrava. E onde meus sentimentos se escondiam...

Jamais te prometi doce amor ou suave afeição. Mas em troca te dei meu corpo e alma de amante como a nenhum outro jamais. Com atrapalhados beijos sôfregos e abraços falsos. Com sorrisos fingidos e olhares manipulados. E fostes feliz, ou não? E acreditavas numa paixão amorosa que jamais sentimos. Que nunca existiu.

Dentro de minha fria pele, de meu quente ser eras feliz. Paixões inúteis como sonhos esquecidos. Como sofrimentos de deuses antigos e homens modernos.

Com minha tua nossa dor.
Com minha falsidade.
Com teu amor.
Com nossa paixão.

Falsos amores apaixonados.

9.15.2004

Sanguíneo ódio

Aquele olhar que na inocência tanto amei, hoje me enoja. Os frios insanos olhos azuis me dão ânsia, sufocam meu peito, apertam minha garganta. Emergem a vontade infantil de correr, fugir, desaparecer... e também os adultos instintos inumanos.

- Pára de gritar! Não suporto mais tanta dor!

Pare de torturar... pare com essas chantagens vãs... com joguetes maldosos psicóticos... com as brigas vis! Que daí os desmaiados olhos verdes dela choram... e eu choro também... e não suportamos mais...

- Sai daqui! Vai embora que não te amamos mais! Nunca mais! Jamais!

E ódios escondidos ressurgem com forças irreais, sobrenaturais... e tuas acusações duras ferem nossos frágeis peitos... e dói tanto, tanto! Muito mais que podemos suportar...

- Pai, vai embora. Que ainda te amo, mas jamais como antes...

9.14.2004

Passa, tempo

Já passou o tempo. Cicatrizes fecharam. Lágrimas não correm mais.

O frágil coração volta pulsar. O sangue corre novamente pelas veias, quente e rápido e rubro e... apaixonante.
A branca pele toma contornos rosados da vida.
Os olhos novamente brilham, o frio verde pálido se esvai, voltando à brilhante cor do mar.
E a suave boca delineia sorrisos de sinceras fingidas seduções.

E a próxima vítima já foi escolhida...
Qual o resultado?
Talvez apenas pele. Talvez apenas paixão. Talvez apenas química. Talvez apenas eu.

Um passatempo de línguas e braços e pernas e cabelos.
Passando agora meus segundos de vidas entre sussurros e gemidos. Querendo divisões de suor e calor. Entre camas de lençóis finos sufocando com beijos de paixão. Sem amor ou contradições.

Apenas um vampiro. De fria branca pele, claros olhos de lua e sangue quente. De olhar fugitivo de lobo e lábios sanguíneos. Com desejos lascivos, suores salgados, ritmos alucinados.

Salivando pela sofreguidão de uma doce fatal mordida...

9.10.2004

Suave sedução

Sentimentos maníacos e insensatos se desvendam explosivos intensos insanos. Como frio gelo em minha quente pele.
Tudo porque sou toda tua. Toda minha. Toda nua. Por fascinação e eterna loucura liberta por beijos, pele, lábios, línguas e bocas.

Com a nudez da minh'alma, quando livre de mim e prisioneira de ti. Com a nudez do meu corpo, pela minha branca pele - curvas boas - pêlos macios - dentes alvos - olhos verdes - pernas longas - finas mãos. Com a nudez de mim e de ti.

Tudo num rubro quarto vazio. Chão e céu azul. Livros pelos cantos e o frio lá fora. Aroma de sândalo e ânsia em mim. Olhares percorrem meu corpo, cheiram minha pele de incenso e beijam minha boca de sangue. Mãos se roçam como línguas insanas e se beijam como palavras em frases dementes sem nexo.

Suave sussurro sensual suplica sedução.
Shhhhhhhhhhhhh..... que a solidão dorme e o silêncio é leve ainda...

9.08.2004

Sob um olhar felino

A primeira coisa em que ela pensava todas as manhãs, ao acordar, era nele. Quer dizer, pensando bem, era a segunda. A primeira ainda era que precisava descobrir uma forma de fazer aquele gato desistir da mania de acordá-la com lambidas. Mas passado o episódio felino diário, era ele que ocupava seus pensamentos. Naqueles instantes em que precisava decidir se continuava dormindo ou levantava, enquanto expulsava o bichano, limpava o rosto com o lençol e abraçava o travesseiro... era apenas ele que ela desejava. Todas as manhãs, desde que o vira pela primeira vez, tinha o mesmo ritual: Lamentar. Lamentar que ele não estava ali quando ela acordava. Lamentar que o travesseiro não retribuía seus abraços da mesma forma que ele. Lamentar que a roupa de cama não tinha o perfume dele. E lamentava que nos últimos tempos, o exemplar do sexo masculino mais assíduo em sua cama não pesava mais de quatro quilos e tinha a língua áspera.

Mas aí esses momentos de lamentação passavam e ela levantava. Pegava o gato no colo, que a essa altura explorava os teclados do computador, dava-lhe um beijo carinhoso e o colocava na sala. Ia até o banheiro e se olhava no espelho. Como sempre fazia, tentava arrumar o cabelo desgrenhado pela cama, lavava o rosto e olhava profundamente nos próprios olhos. Todas as manhãs, desde que o conhecera, era o mesmo ritual: Lembrar. Lembrar que os olhos dele eram da mesma cor dos dela. Lembrar que o olhar dele sempre lhe dava a impressão de esconder algo. Lembrar que, fora idêntica cor, os olhos dele jamais prometeram o mesmo que os dela. E lembrava que possivelmente via e lembrava tudo isso porque ainda não tinha posto os óculos.

E então os instantes de lembranças passavam e ela precisava começar o dia. Dava comida e água ao bicho. Arrumava a cama. Abria o guarda-roupa e se vestia, sem pensar se a calça combinava com a blusa. Pegava o gato, que a essa hora já acabara de tomar seu café da manhã, e sentava em frente ao computador. Acariciava o felino enquanto esperava o computador ligar. Todos os dias, desde que o beijara, seguia o mesmo ritual: Pensar. Pensar que não podia, não queria, não iria ligar para ele para conversar. Pensar que não importava o que ele prometesse, ela jamais voltaria, não depois do que ele fizera. Pensar que, acontecesse o que acontecesse, ela nunca mais se deixaria levar pela paixão, pelo carinho, pela falta que sentia dele para perdoá-lo. Pensar que, não é porque ela estava apaixonada que admitiria isso a ele. E pensava que precisava comer alguma coisa e parar de pensar.

Só que aí aconteceu uma coisa diferente desde que ela o encontrara e que fugia aos rituais: o gato acordou do sono, da forma peculiar que fazia quando algo chamava sua atenção. E ela ia acalmá-lo, mas o bichano correu em direção à porta. E a campainha tocou. E nessa hora, diferente de todas as manhãs de todos os dias, ele estava do lado de fora. E ela tentou fingir um olhar indiferente, e ele mentiu que os olhos vermelhos eram porque acordara a pouco, e ele fingiu que passara por ali por acaso, e ela mentiu que sequer esperava que ele aparecesse. E então aconteceu o que os dois temiam: o silêncio gritou alto.

E ele disse sinceramente que sentia falta dela. E ela respondeu francamente que não podia confiar nele. E ele pediu fielmente que lhe desse uma última chance. E ela pensou e lembrou o quanto lamentou por ele. E descobriu que estava cansada de tantas lamentações, de lembranças e pensamentos. E ele lhe deu aquele olhar de quem espera uma decisiva resposta. E ele ainda não sabia, mas ela já decidira.

Na manhã daquele dia, contrariando os rituais que seguia desde a primeira vez que o vira, desde que o conhecera e o beijara, naquele instante, quando o encontrara, ela decidiu: Lembrar, e depois lamentar e depois pensar? Não mais. Dessa vez ela agiria. Pegou as chaves do pequeno apartamento que estavam em cima da mesa. Fechou a porta. Segurou as mãos. Olhou no fundo dos olhos dele. Sorriu e declarou: “Tens um dia para me convenceres que mudastes e que devo confiar em ti”. Ele respirou fundo, sorriu, e pela primeira vez, os olhos dele concordaram com o que as palavras diziam: “Vou fazer o possível”.

E os dois saíram, cada um prometendo a si que fariam tudo que podiam para que desse certo dessa vez. E enquanto a porta do elevador se fechava, um par de olhos azuis os observava. Era o gato, que sentia que na próxima manhã não iria acordar sua dona com seus carinhosos e ásperos beijos...

9.06.2004

Feliz aniversário

- Chove demais hoje, não acha?
- A chuva nada mais é senão o céu chorando.
- E porque o céu chora?
- A pergunta correta seria: “Por QUEM o céu chora?”
- Mas então me diz, por quem ele chora?
- Na verdade, minha criança, não é o céu que chora. Somos nós que choramos, e o céu é apenas uma extensão de nós mesmos. E sendo o céu, nada mais que nós, a pergunta volta: “Por quem NÓS choramos?”
- E por quem nós choramos?
- Nós, meu querido anjo, só choramos por nós mesmos. Choramos por nossas conquistas desgraçadas. Choramos porque somos felizes e sofremos; choramos porque somos como somos. Choramos porque amamos.
- E porque amamos?
- Amamos, meu doce amor, porque somente quem ama é capaz de fazer perguntas tais como “porque o céu chora”.

E então tu me dissestes que o céu chorava por amor. E que nós sofríamos quando chovia porque, na realidade, quem derramava lágrimas sobre o mundo éramos nós. E foi aí que descobri porque a chuva sempre foi minha grande obsessão. Porque sabia que quando o céu chorava, era por amor a mim. E quando as gotas de chuva lambiam meu rosto, era ele que chegava a mim e me tocava.

Eu lembrava todos os loucos monólogos (?) que tínhamos enquanto bebia um café frio e olhava mais aquela chuva pelos vidros sujos de lugar algum. Enquanto isso, o resto do mundo reclamava do frio amor. E as pessoas se irritavam com as poças de amor líquido que se formavam nas ruas. E o céu chorava mais pelo sentimento que elas não entendiam.

E ao perceber isso, agora era eu que chorava. Chorava por ver que o mundo e as pessoas não viam o gesto triste do céu, de derramar amor em forma de chuva. E lá fora ainda chovia. A vazão de emoções liquefeitas aumentava. E eu não podia ficar seca e protegida, ao ver que o mundo não compreendia que o céu chorava.

Mas me deixava ficar. E o café esfriava ainda mais. E os vidros ficavam cada vez mais imundos. E aquele lugar qualquer se enchia de pessoas que não entendiam a chuva. E eu não podia sair. Tenho que esperar... Mas acabo o café e preciso decidir. Lá fora chove, mas eu entendo. Aqui dentro é quente, mas sofro. Sofrerei também lá fora?

- Faltou uma parte do teu presente de aniversário.

Ele abre a caixa. Dentro, um pequeno frasco com gotas d’água.

- É o meu amor por ti.

Ela vai embora. Sempre chorando. Ele segura a caixa.
Lá fora, não chovia mais. Só aqui dentro.

Obs. análogas.: “Dias de chuva são tão bons quanto dias de sol. Ambos existem"

9.04.2004

Demente fantasia

E eu quisera saber quando essa necessidade infame e invisível e inútil e insana por escrever começou a se alastrar pelo meu ser e vida e alma. Nunca penso ou domino as palavras que se desenham sobre o papel numa caligrafia sofrível e ilegível.

Quando a mão segura o lápis sôfrega. As unhas arranham a madeira macia. O rosto repousa nervoso sobre o bloco, e o cheiro frio e ácido e insensível do papel invade minha narinas até o cérebro. E o som imperceptível ritmado do grafite desnudando e desvirginando a folha virgem branca confundem minha mente e apagam o mundo.

Fios de cabelo perdidos sobre a mesa formam desenhos vermelhos amarelos marrons como sonhos abstratos finos e ondulados. E se misturam e mesclam à letra irregular e aos olhos inquietos de mim que escrevo. Quando sons loucos e sem nexo como as palavras surgem, tal qual vampiros de olhos de fogo e dentes de sangue, quando vozes roucas soam, interrompo o comportamento viciante e fascinante de escrever.

O nada sobrevoa a mente, a mão não pára, o cansaço chega, calos se formam a pele sangra do contato constante com o papel os olhos quase cegos se perdem nas palavras cada vez mais sem nexo cada vez mais nervosas cada segundo mais obsessivas impulsivas insuportáveis incontroláveis inomináveis.

E finalmente tudo se torna sem sentido e sem razão. Apenas mais uma obsessão. Mais uma compulsão. Vital. Mortal. Irreal. Amoral.

9.03.2004

Falta de mim

Vejo dias e anos e meses e horas e noites se irem. E esse tempo agora é assim. E chuva e sol e vento e calor passam. E o tempo continua assim. E sempre meu. Unicamente meu, formando minha vida meu ser meu ter meu ver.

E as portas se abrem e se fecham. E pessoas passam. Rostos conhecidos e não. E os dias passam, iguais e não. E preciso sair. E não quero, e meus olhos enchem d'água. E tento... tento esconder! Olho o céu as nuvens, mexo o nariz a boca. Deus meu, como é difícil!

Saber que não volta mais. Que fica só na memória. As adoráveis irritantes manias. As implicâncias bobas. As risadas boas. As confissões tolas.

Saudade de mim. Falta do tempo daqui. Falta de mim. Saudade do tempo daqui. Minha saudade daqui. Tempo em falta de mim.

Tempo de saudade do meu aqui em mim.

Obs. análogas.: Sei que meu tempo aqui acabou. Mas vou sentir tanta falta!

9.02.2004

Céu azul, mon amour

Meu ódio é maior que meu corpo como teu ego é maior que teu sono, sono de quem não dorme porque sequer ama. Dias de sol.

Minha fúria é menor que meu medo e teu medo é muito maior que prazer, prazer de mim que não sei o que querer. Trovões e nuvens.

Tua vida é a minha porque assim a quisestes. Tua vida de homem é a minha de mulher, céu azul. Por mim e por ti e por eles e por nós eu entendo que jamais seremos mon amour.

Venenos entram em mim. Minha boca minhas veias minha pele meus ouvidos.
Cianureto de lembranças recordações livros tolos conversas fúteis beijos falsos abraços negados olhares roubados.

Teu olhar frio verde-pálido me enoja me detesta me anseia me deseja me repulsa. Como vidas vãs que decepam sonhos e outras vidas.

8.30.2004

Para ele e ela

Ele e ela se encontraram. O relacionamento não era nada comum... não se tocavam. Não se beijavam. Não olhavam nos olhos um do outro. Ele não sabia a sedosidade do cabelo dela. Ela não sabia da maciez das mãos dele. Ele não via os olhos dela mudarem de cor num dia de sol. Ela não via o brilho dos olhos dele ao receber pequenas surpresas.

Mas apesar de todos os obstáculos. Apesar da distância. Mesmo com brigas superficiais e ciúmes escondidos e medos bobos eles se amam. E como em todo e qualquer amor, aconteceram momentos bons. Conversas boas e confidências sinceras e elogios macios. E poucos tristes momentos ruins. Desconfianças vãs e acusações tolas e discussões duras.

E mesmo com todos os pesares eles acreditam. Crêem na paixão e no amor e no carinho. Desejam e depositam esperanças e sonhos um no outro. Desejam-se ardentemente como somente jovens apaixonados podem. Trocam juras de amor e palavras eternas de afeição.

E são felizes. Conheceram o amor sincero e a paixão escondida. Querem agora o amor inteiro e a paixão louca. E contam dias e horas e minutos e segundos para isso. E se amam. Hoje e, acreditam, sempre.

8.29.2004

Mais ou menos

"Porque o amor não pode ser somente uma ilusão coletiva!"

Foi o que ela disse. E naquela simples e clara frase se descobriram os medos de todos. E foi como se a bela noite se tornasse confidente e conselheira e mãe e irmã e amante e amiga e inimiga de todos e de cada um.

E para outra ela poucas muitas coisas se tornaram claras. Frases soltas e lúcidas e bêbadas surgiam na mente confusa.
Que sabe o que quer.
E soube que lutara tudo que podia.
E que não dera certo.
E outra vez chorara e sofria.
E ainda mais essa vez mais levantara a cabeça.
E mais uma outra vez tentara continuar sua louca simples vida.

Mais e mais uma e outra vez ele voltava, com olhos como de um fantasma tolo assombrando e assustando e relembrando o tudo e o nada. E outra e outra vez aparecia e se mostrava e... não a deixava continuar. E ela sufocava, e se sentia presa e desfalecendo e desistindo e morrendo.

E ela já não sabia agora mais nada. E sinceramente chegara ao limite extremo do cansaço.
E a fria noite não sabia o que aconselhar.

Obs. análogas.: Me ame ou me odeie. Fique comigo ou nunca mais. O mais-ou-menos é que me incomoda.

8.27.2004

Porque areia são somente pedras pequeninas

E um dia odiei aqueles olhos verdes. E discuti por falta de objetivos. E por covardia e por paixão e por medo. E briguei e xinguei e discuti e quase chorei.
E por tanto tempo acreditei ter razão. E usei palavras duras e cruas. E me apoiei nos meus poucos anos e nos teus tantos a mais. E me baseei em experiências vazias e tristes. E desejei a insanidade.
E neguei tanto... e senti-me tão feliz ao ver que concordavas e aceitavas. Que me vias certa. Que me querias com razão.

E por tantos dias e tardes e noites me acreditei inteira. A teimosa rebeldia boba que tanto reclama(va)s não me deixa(va) ver.
E ainda continuo rebelde e teimosa e boba. Mas agora assumo. Porque quem não tem mais objetivos sou eu. Quem não sabe mais onde ir e o que fazer e desejar e viver e querer sou eu mesma.
E agora quem roga à noite fria e à lua tola que lhe mostre qualquer viver, sou eu.

E agora nesse instante sou somente e simplesmente eu que te peço sinceramente e publicamente desculpas. E te confesso que tudo que disse e toda acusação que fiz foi somente reflexo de loucos medos. Um temor (in)fundado de uma vida que nem sabia desejar. Um medo de aceitar o que nem sabia que não queria.

Um medo confuso e difuso como estas frases soltas.

8.25.2004

Lábios mentirosos

E se sumisse e desaparecesse e aparentemente morresse? E se fosse embora da tua, da minha/nossa vida? E se te esquecesse de vez mesmo. Daquele jeito definitivo e impossível e irreal e inatingível que desejo. Se esquecesse tudo, tudo e nada.

E quando olhasse para ti não visse nada, nada além de olhos verdes num rosto bonito? E se te beijasse e só sentisse a umidade da tua língua e a maciez da tua boca e a pele dos teus lábios? E quando chegasse perto e te tocasse e te sentisse e não te amasse, e tu fosses então apenas mais um entre tantos cheiros incomuns?

E então tu me olharias, sei tão bem disso. E me dirias que era isso que querias, isso que tanto desejaras e sonharas e pediras e imploraras. E exatamente dessa forma tuas palavras soariam através da tua boca até meus ouvidos. Mas não até minha/tua alma. E pelos teus olhos saberia que mentias. Porque eles te traem, como sempre traíram... ah, e os conheço bem demais para que me enganem mais.

Porque teus olhos me implorariam que te beijasse só mais essa vez, e sentisse só mais uma vez a docilidade de sempre e de nunca e de todos os tempos. E é nessa hora que tu me mentirás. E me dirás que não, jurarás que não, nunca jamais me desejastes me quisestes me amastes.

E aí te direi que já não me importa.

Porque agora eu é que não te quero mais.

8.24.2004

Prazeres (quase) proibidos

Não provoca não. Ah... não faz assim. Que eu não posso, não devo... ah, mas eu quero, quero.
Não me dá esse olhar. Nem vem com esse sorriso cafajeste. Que eu tô quase, quase caindo...

Sai daqui com esse jeitinho simpático. Com essa voz rouca. Esse cheiro impossível.
Sai daqui que tu não podes fazer isso... que tu não presta, e eu menos ainda por não dizer que não.

Ah, sai daqui tentação! Que a vontade de dizer que sim aumenta. E tu bem sabes que eu não quero nada contigo, só agarrar teu corpo e sugar tua alma e beijar tua boca.

E nada mais me prende para o não. Só minha consciência. E essa já está tão longe, longe...
Então não chega perto não... que daqui a pouco eu não agüento...

E aí a culpa vai ser grande... e o prazer também.

8.23.2004

Irreais lembranças

Eu quis te esquecer. Desejei tanto, e quanto e muito jamais ter te encontrado. Desejei jamais ter te beijado. Jamais ter ligado. Desejei depois não ter dado a segunda, terceira, quarta chances. Como quis esquecer-te! Esquecer teu cheiro depois da cama, e impregnado em mim. A pressão do teu toque. A expressão dos teus olhos fechados, e a boca exausta. O calor da tua pele nas minhas mãos geladas.

Quis tanto esquecer, que até doeu. Doeu quando comecei a esquecer de verdade. Já não lembro bem da tua voz, e ela parece estranha quando me ligas. Não lembro do gosto da tua boca. Apenas a docilidade dos lábios. E de tantas perguntas quero respostas... Teu cabelo enroscava nos meus dedos? Teus olhos são verdes com pontos azuis ou amarelos? Qual é o tom exato da tua pele? Tuas mãos são ásperas ou macias? Eu que já soube responder tudo isso, hoje só tenho letras frias e soltas na tela de um computador irracionalmente comum.

Mas então penso: fui eu que quis, eu que desejei tanto tudo isso...
Mas agora que está acontecendo... quis mesmo isso tudo tanto?

Quero mesmo me afastar daquelas boas bobas lembranças? Preciso mesmo te manter tão longe daqui? Não sei. A garota que sempre soube o que escrever está confusa. Não sabe que combinação de palavras usar. E que tal ser tua a vez de responder? Através destas teclas irreais que te separam de mim.

Eu te espero. Como disse que esperaria.

8.19.2004

Para ninar

Era uma vez um lindo amor que terminou. Peraí, não era bem assim. Como era mesmo? Ah sim. Era uma vez uma paixão física e avassaladora e louca e irrefreável e inconstante e insuportável e impossível e inexplicável. E os amores vêm e vão, e por isso o mundo é tão incrível. Porque o amor não faz o mundo girar, mas é o que me dá vontade de continuar rodando junto com ele. E uma bela noite chegou ao fim. Ou foi um belo dia? Bom, o que importa é que acabou. Acabou porque o lindo príncipe se apaixonou por outra linda garota. Ou será que acabou porque a bela princesa desistiu do príncipe? E não importa. Meu coração nunca perderá aquilo que já possuiu. Mesmo que por segundos. Mas então tudo que nunca começou, chegou ao final.

E o belo príncipe tentou a sorte com a nova paixão. E a bela princesa tentou tomar sua vida de volta. E nenhum conseguiu. Tu podes cometer erros, podes ser até um ser humano comigo. E não importa, eu te amarei ainda assim. Mesmo assim. Por ti e por mim. O príncipe não conseguiu porque era tão teimoso quanto a princesa. A princesa não conseguiu porque desistiu do príncipe e de todo amor.

E o príncipe saía pelas noites escuras imaginando se o amor andaria por ali. Antes de nos encontrarmos éramos apenas metades vagando perdidas pelo mundo, com uma falsa cobertura na parte que nos faltava, preenchendo vaziamente nosso espírito. E a princesa olhava para a lua e pensava que amor algum existia ali. E se o amor de nossa vida estiver longe, tão longe e nunca o encontrar? E se estiver tão perto, e meus olhos frios estiverem tão errados ao vê-lo, que vendo-o não o reconheça como amor? E ele tentava não pensar mais. E ela tentava fingir que não lembrava mais.

... um minúsculo papel voa. Está molhado, amassado da crueza das noites e dias de chuva. Os olhos verdes o miram. As lágrimas acompanham o movimento lento do vento no papel. A mão chega perto. Tremendo.

Preciso de asas para fugir de todo amor. E para voltar ao amor. E para ti.

8.18.2004

Quase monólogo

- Tá, eu sou teimosa sim, e daí? Tu já sabia disso quando apaixonou por mim, não sabia? Então agora agüenta. Paixão vem em pacote completo/fechado/lacrado/inviolável. Tem coisas boas. Tem coisas ruins. Tem coisas péssimas. Ganhou olhos verdes, veio amostra grátis de rebeldia sem causa. Pediu inteligência, colada juntinho tava a insegurança. Tá, eu sou assim mesmo, e daí? Tu também não é amor algum de pessoa. Ou acha que eu não vejo, essa cafajestice, esse jeito de não deixar mulher nenhuma passar em branco? Que eu não vejo, falando baixinho no telefone, controlando risada? E quer saber? Pelo menos eu sempre fui eu mesma. Sempre te mostrei que tinha todos defeitos horríveis, poucas qualidades incríveis. Me mostrei inteira pra ti, não foi? E não faz essa cara não que eu tô falando sério! Não, não vem assim, não faz assim... que assim eu derreto, que assim eu não resisto, que assim eu não quero, assim eu não posso... vai, sai daí... por favor... não, não me beija assim, larga meu pescoço, tira essa mão, sai daqui com esse perfume, essa língua, esses dentes, esse monte de dedos... que eu não te quero, eu não te posso mais...

- Deixa de ser fresca e fica quieta.

- ...

8.16.2004

Surpresa de margaridas

Fascinam-me surpresas. Pequenas boas coisas que acontecem e sequer esperávamos. Um sorriso sincero vindo daquela pessoa que ousei magoar. Uma mensagem alegre daquele alguém tão longe, tão perto.

Um encontro nada planejado, uma conversa tão boa. Uma possibilidade de algo mais. A confirmação da certeza do nunca mais. E a liberdade de tudo, e então soltam-se as antigas e enferrujadas amarras. Restam apenas as novas/inúmeras/futuras/urgentes possibilidades deliciosas. E a necessidade da urgência. De um encontrar de novo. Da confirmação do reconhecimento.

E o novo que tanto me assustou... escaldante euforia agora. Vai noite, passa que eu não te quero. Vamos dias, passem, corram, que preciso que outros dias cheguem... que desejo tanto as novas confirmações de tudo que prometestes!

Mais uma vez, acompanhada de margaridas...

8.14.2004

Gatinho assustado

Tinha medo, naquela infância boa, de dormir com a porta aberta. Ainda hoje não consigo. Não falava com pessoas estranhas. E hoje reluto em pedir informações ou perguntar as horas. Lagartixas arrepiavam minhas costas. Até agora tremo pela pele branca-transparente.

Fogo me fascina. Brinco com fósforos. Vou até o fundo no mar. Ainda não aprendi a nadar. Ando sozinha na rua, qualquer hora da madrugada. Não presto atenção nos carros. Não os enxergo. Me penduro das sacadas mais altas. Quisera saber voar.

Tenho medo de amores loucos. De beijos roubados. De paixões cegas. Me amedrontam vidas prisioneiras. Entro em pânico em apenas dormir com outra pessoa.

Meu medo é perder o controle, de cair. Não é de me atirar, se preciso for, caio de braços abertos. O que me apavora é cair sem saber.

8.13.2004

Olhos de luz

Meus olhos não têm mais vida. Olho-me no espelho e não encontro o brilho de sempre/antes. A cor não é mais a mesma. Não enxergo mais o verde. Apenas um azul sem vida, sem cor, sem amor algum.

Amor não quero mais. Mas desejo minha luz de volta. Não te quero mais; me quero de volta, inteira.

Que esses olhos sem vida vão embora. Não os quero mais. Decidido hoje, publicamente, como tantas outras vezes: minha vida de volta, sem ti, sem ninguém. Somente eu. Como sempre fui!

8.12.2004

Mentiras sinceras

- Pára de mentir.
- Não minto (ja)mais. Mentir pede energia, e a minha toda escorre-me pelos olhos.

8.11.2004

Lágrimas ao acordar

Ela se gosta nos momentos pouco convencionais. A maioria das mulheres se julga bonita após um longo e relaxante banho, uma tarde no salão de beleza ou com o rosto maquiado. Ok, sem mentiras. Apenas entre nós, secreta: também ela destina uma parte de seu salário à indústria de cosméticos. Mas o momento em que se acha mais bonita é bem outro. É aquele temido pela população feminina: os cinco minutos após levantar.

Ela abre os olhos e passa os minutos seguintes espreguiçando cada parte do corpo, cada músculo atrofiado pelo sono. Abraça o travesseiro, e decide que já é hora de levantar. Com os pés descalços, sente a temperatura do quarto acarpetado e compara com os frios azulejos do banheiro. E então ela chega ao espelho. A miopia não lhe permite profundas avaliações da distância “normal” que as pessoas se miram em superfícies polidas. Precisa sempre chegar mais perto.

Então ela quase encosta o pequeno nariz no espelho. A respiração sempre o embaça - ainda mais nesse inverno gaúcho. Quando a imagem volta ao normal, observa seu rosto. O comprido cabelo sempre desarrumado, caído em seus olhos. Sua boca seca durante a noite. A delicada pele dos lábios racha, se machuca. Parece estranho, mas são mais bonitos assim. Não, ‘bonitos’ é a palavra errada. São mais ... ‘autênticos’ assim. Pela manhã, sua branca pele está lisa, o frio ainda não a violentou o suficiente para ressecá-la - como invariavelmente acontecerá ao final do dia. Mas o que mais gosta de observar são seus olhos.

Os belos olhos quase cegos. Tão expressivos durante o dia... tão pequenos agora - culpa da sonolência. Nas manhãs, eles adquirem uma estranha coloração. Cor que não se decide nem pelo sincero verde, sequer o traiçoeiro azul. Aparentam alguma indefinida cor entre esses tons. Junto aos olhos, ela tem rastros em seu rosto. Ela chora quando dorme. Derrama lágrimas em seus sonhos. Todas as manhãs, ela tem pequenos resquícios dessas emoções no canto de seus olhos.

E é isso que a faz gostar de si especialmente nessa hora, nesses cinco minutos após acordar. Adora saber que nesse momento, é apenas ela. Unicamente ela. Autenticamente ela. Sem qualquer máscara. Somente há ela com os cabelos desgrenhados, os lábios machucados, os olhos sujos. Somente ela com a alma leve, a mente solta e o corpo descansado. Com toda beleza da alma em seus olhos.

Só que então os minutos de contemplação precisam acabar. E ela ajeita os cabelos com as mãos, e os prende para que os teimosos fios não a incomodem. Lava o rosto e apaga qualquer vestígio das lágrimas sonhadoras. Umedece os lábios e acaba com sua autenticidade. No restante do dia, ainda será ela. Será ela com os inquietos olhos verdes. Com batom e lentes de contato. Até o fim do dia, ainda será apenas ela. Ainda ela, um pouco mais cansada. Ela com idéias borbulhando na cabeça, e a alma um pouco mais pesada. Com toda beleza de seus olhos pela alma.

Até o próximo secreto encontro matinal com o espelho. E a volta de suas lágrimas.

8.10.2004

Fast-food de paixões

Sensações esquisitas me acometem. Parece que minha almase dividiu em duas: uma adora e tem certeza que vai adorar sempre e sempre. A outra a manda calar-se: nada sabe sobre adorações.

Paixóes insensatas me invadiram. Todas elas, uma a uma, exilei em um canto escuro e poeirento de minh'alma. Mais esta lhes fará companhia. Mais uma para espanar o pó, caso um dia resolva revivê-la/reavivá-la/apagá-la/matá-la.

Ao mesmo tempo, e por isso talvez, que estas sensações parecem mais e mais estranhas, segundo a segundo.

Perdi uma paixão e ganhei uma boa amizade. Paixões deram-me sempre lágrimas + sofrimento. Amigos sempre oferecem alegrias + sorrisos.

Não me sinto triste (MENTIRA!) assim. Parece-me que não nasci para apaixonar-me. Penso às vezes que apareci nesse mundo não para ser amada, mas para distribuir minhas gotículas de afeição.

Sendo assim, desisto. Nesta fria noite, publicamente, temporariamente, indefinidamente, de amores. Fujo daqueles braços nos quais e pelos quais tantas salgadas lágrimas derramei. E que também (desculpe!) fiz e faço sofrer, mesmo sem desejar. Corro de encontro a meus bons e fiéis amigos. E por eles rio e me alegro, porque sinceramente o querem fazer comigo. E por eles e para eles, porque o desejam, os farei rir com minhas tristes palhaçadas.

E assim, agora, mudo minha alimentação. Não mais ração de beijos, sexo e abraços-pós.
Agora só quero fast-food de gargalhadas, olhares e sorrisos-fáceis.


Obs. análogas.: desculpem possíveis erros. As lágrimas me impedem de escrever algo melhor. Mas não se preocupem. Um dia melhoro.

8.08.2004

Vermelho-beijo

Morangos são frutas estranhas. Têm linda cor preferida, vermelho-paixão. A língua os sente leve aspereza... macio.. úmido. Os lábios dele também são assim. Têm uma maciez resistente ao toque dos dedos, e suave em outros lábios.

Mordo e o sabor invade minha boca. Gotas escorrem pela pele, sangram docilidade.
Mas agora só me sobra a aspereza inicial. Ou minha última chance de decorar o gosto de morangos... doce, cítrico, suculento... e então, escorregue pelos meus lábios. Pela última vez.

Mal consigo esperar.

8.07.2004

Para almas confusas

Até onde nos escondemos de presenças físicas para fugir de espíritos imutáveis deste teu/meu outro alguém?

(quisera saber eu... crio perguntas que não quero dar respostas)

8.06.2004

Por um dia mais suportável

Alguns dias são suportáveis. Outros, sofríveis. Alguns são alegres e rápidos.
Alguns dias trazem surpresas. Outros te darão surpresas. Alguns te farão tomar decisões surpreendentes.

Decisões tristes... quando ela decide que precisa deixá-lo. Quando ela finalmente aceita o que o mundo lhe gritava: que amores nem sempre são correspondidos.
E ela sabe que isso a fará sofrer como não se lembra de ter sofrido em outro dia de sua vida. E sabe que esse sofrimento não será passageiro. Conscientiza-se que a dor vai ser horrível, quase insuportável. Mas aceita. Aceita que lágrimas serão sua companhia pelas próximas várias frias noites. Talvez por todas as noites.

- E se eu te beijasse agora?
- Eu não deixava. Teus beijos tem sabor de fel agora.

Apenas mais uma vez vou te encontrar. Mas não me faça chorar mais...
Observações análogas.: Iz. -> eu ainda te adoro, e vou te adorar tanto ainda... mas entenda que minh'alma não aguenta mais.

8.02.2004

Iniciando os trabalhos...

Primeiro passo foi dado. Dentro em breve, novidades.
O que será visto aqui? Apenas minhas loucuras passageiras, meus pensamentos eternos... apenas eu.

Ou então me cansarei disso em três ou quatro dias, e nunca será atualizado. No momento, espero que isso não aconteça. Veremos.