A primeira coisa em que ela pensava todas as manhãs, ao acordar, era nele. Quer dizer, pensando bem, era a segunda. A primeira ainda era que precisava descobrir uma forma de fazer aquele gato desistir da mania de acordá-la com lambidas. Mas passado o episódio felino diário, era ele que ocupava seus pensamentos. Naqueles instantes em que precisava decidir se continuava dormindo ou levantava, enquanto expulsava o bichano, limpava o rosto com o lençol e abraçava o travesseiro... era apenas ele que ela desejava. Todas as manhãs, desde que o vira pela primeira vez, tinha o mesmo ritual: Lamentar. Lamentar que ele não estava ali quando ela acordava. Lamentar que o travesseiro não retribuía seus abraços da mesma forma que ele. Lamentar que a roupa de cama não tinha o perfume dele. E lamentava que nos últimos tempos, o exemplar do sexo masculino mais assíduo em sua cama não pesava mais de quatro quilos e tinha a língua áspera.
Mas aí esses momentos de lamentação passavam e ela levantava. Pegava o gato no colo, que a essa altura explorava os teclados do computador, dava-lhe um beijo carinhoso e o colocava na sala. Ia até o banheiro e se olhava no espelho. Como sempre fazia, tentava arrumar o cabelo desgrenhado pela cama, lavava o rosto e olhava profundamente nos próprios olhos. Todas as manhãs, desde que o conhecera, era o mesmo ritual: Lembrar. Lembrar que os olhos dele eram da mesma cor dos dela. Lembrar que o olhar dele sempre lhe dava a impressão de esconder algo. Lembrar que, fora idêntica cor, os olhos dele jamais prometeram o mesmo que os dela. E lembrava que possivelmente via e lembrava tudo isso porque ainda não tinha posto os óculos.
E então os instantes de lembranças passavam e ela precisava começar o dia. Dava comida e água ao bicho. Arrumava a cama. Abria o guarda-roupa e se vestia, sem pensar se a calça combinava com a blusa. Pegava o gato, que a essa hora já acabara de tomar seu café da manhã, e sentava em frente ao computador. Acariciava o felino enquanto esperava o computador ligar. Todos os dias, desde que o beijara, seguia o mesmo ritual: Pensar. Pensar que não podia, não queria, não iria ligar para ele para conversar. Pensar que não importava o que ele prometesse, ela jamais voltaria, não depois do que ele fizera. Pensar que, acontecesse o que acontecesse, ela nunca mais se deixaria levar pela paixão, pelo carinho, pela falta que sentia dele para perdoá-lo. Pensar que, não é porque ela estava apaixonada que admitiria isso a ele. E pensava que precisava comer alguma coisa e parar de pensar.
Só que aí aconteceu uma coisa diferente desde que ela o encontrara e que fugia aos rituais: o gato acordou do sono, da forma peculiar que fazia quando algo chamava sua atenção. E ela ia acalmá-lo, mas o bichano correu em direção à porta. E a campainha tocou. E nessa hora, diferente de todas as manhãs de todos os dias, ele estava do lado de fora. E ela tentou fingir um olhar indiferente, e ele mentiu que os olhos vermelhos eram porque acordara a pouco, e ele fingiu que passara por ali por acaso, e ela mentiu que sequer esperava que ele aparecesse. E então aconteceu o que os dois temiam: o silêncio gritou alto.
E ele disse sinceramente que sentia falta dela. E ela respondeu francamente que não podia confiar nele. E ele pediu fielmente que lhe desse uma última chance. E ela pensou e lembrou o quanto lamentou por ele. E descobriu que estava cansada de tantas lamentações, de lembranças e pensamentos. E ele lhe deu aquele olhar de quem espera uma decisiva resposta. E ele ainda não sabia, mas ela já decidira.
Na manhã daquele dia, contrariando os rituais que seguia desde a primeira vez que o vira, desde que o conhecera e o beijara, naquele instante, quando o encontrara, ela decidiu: Lembrar, e depois lamentar e depois pensar? Não mais. Dessa vez ela agiria. Pegou as chaves do pequeno apartamento que estavam em cima da mesa. Fechou a porta. Segurou as mãos. Olhou no fundo dos olhos dele. Sorriu e declarou: “Tens um dia para me convenceres que mudastes e que devo confiar em ti”. Ele respirou fundo, sorriu, e pela primeira vez, os olhos dele concordaram com o que as palavras diziam: “Vou fazer o possível”.
E os dois saíram, cada um prometendo a si que fariam tudo que podiam para que desse certo dessa vez. E enquanto a porta do elevador se fechava, um par de olhos azuis os observava. Era o gato, que sentia que na próxima manhã não iria acordar sua dona com seus carinhosos e ásperos beijos...