Ela se gosta nos momentos pouco convencionais. A maioria das mulheres se julga bonita após um longo e relaxante banho, uma tarde no salão de beleza ou com o rosto maquiado. Ok, sem mentiras. Apenas entre nós, secreta: também ela destina uma parte de seu salário à indústria de cosméticos. Mas o momento em que se acha mais bonita é bem outro. É aquele temido pela população feminina: os cinco minutos após levantar.
Ela abre os olhos e passa os minutos seguintes espreguiçando cada parte do corpo, cada músculo atrofiado pelo sono. Abraça o travesseiro, e decide que já é hora de levantar. Com os pés descalços, sente a temperatura do quarto acarpetado e compara com os frios azulejos do banheiro. E então ela chega ao espelho. A miopia não lhe permite profundas avaliações da distância “normal” que as pessoas se miram em superfícies polidas. Precisa sempre chegar mais perto.
Então ela quase encosta o pequeno nariz no espelho. A respiração sempre o embaça - ainda mais nesse inverno gaúcho. Quando a imagem volta ao normal, observa seu rosto. O comprido cabelo sempre desarrumado, caído em seus olhos. Sua boca seca durante a noite. A delicada pele dos lábios racha, se machuca. Parece estranho, mas são mais bonitos assim. Não, ‘bonitos’ é a palavra errada. São mais ... ‘autênticos’ assim. Pela manhã, sua branca pele está lisa, o frio ainda não a violentou o suficiente para ressecá-la - como invariavelmente acontecerá ao final do dia. Mas o que mais gosta de observar são seus olhos.
Os belos olhos quase cegos. Tão expressivos durante o dia... tão pequenos agora - culpa da sonolência. Nas manhãs, eles adquirem uma estranha coloração. Cor que não se decide nem pelo sincero verde, sequer o traiçoeiro azul. Aparentam alguma indefinida cor entre esses tons. Junto aos olhos, ela tem rastros em seu rosto. Ela chora quando dorme. Derrama lágrimas em seus sonhos. Todas as manhãs, ela tem pequenos resquícios dessas emoções no canto de seus olhos.
E é isso que a faz gostar de si especialmente nessa hora, nesses cinco minutos após acordar. Adora saber que nesse momento, é apenas ela. Unicamente ela. Autenticamente ela. Sem qualquer máscara. Somente há ela com os cabelos desgrenhados, os lábios machucados, os olhos sujos. Somente ela com a alma leve, a mente solta e o corpo descansado. Com toda beleza da alma em seus olhos.
Só que então os minutos de contemplação precisam acabar. E ela ajeita os cabelos com as mãos, e os prende para que os teimosos fios não a incomodem. Lava o rosto e apaga qualquer vestígio das lágrimas sonhadoras. Umedece os lábios e acaba com sua autenticidade. No restante do dia, ainda será ela. Será ela com os inquietos olhos verdes. Com batom e lentes de contato. Até o fim do dia, ainda será apenas ela. Ainda ela, um pouco mais cansada. Ela com idéias borbulhando na cabeça, e a alma um pouco mais pesada. Com toda beleza de seus olhos pela alma.
Até o próximo secreto encontro matinal com o espelho. E a volta de suas lágrimas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário