9.04.2004

Demente fantasia

E eu quisera saber quando essa necessidade infame e invisível e inútil e insana por escrever começou a se alastrar pelo meu ser e vida e alma. Nunca penso ou domino as palavras que se desenham sobre o papel numa caligrafia sofrível e ilegível.

Quando a mão segura o lápis sôfrega. As unhas arranham a madeira macia. O rosto repousa nervoso sobre o bloco, e o cheiro frio e ácido e insensível do papel invade minha narinas até o cérebro. E o som imperceptível ritmado do grafite desnudando e desvirginando a folha virgem branca confundem minha mente e apagam o mundo.

Fios de cabelo perdidos sobre a mesa formam desenhos vermelhos amarelos marrons como sonhos abstratos finos e ondulados. E se misturam e mesclam à letra irregular e aos olhos inquietos de mim que escrevo. Quando sons loucos e sem nexo como as palavras surgem, tal qual vampiros de olhos de fogo e dentes de sangue, quando vozes roucas soam, interrompo o comportamento viciante e fascinante de escrever.

O nada sobrevoa a mente, a mão não pára, o cansaço chega, calos se formam a pele sangra do contato constante com o papel os olhos quase cegos se perdem nas palavras cada vez mais sem nexo cada vez mais nervosas cada segundo mais obsessivas impulsivas insuportáveis incontroláveis inomináveis.

E finalmente tudo se torna sem sentido e sem razão. Apenas mais uma obsessão. Mais uma compulsão. Vital. Mortal. Irreal. Amoral.

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